O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 281

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
bom, seu interesse por você é genuíno e me atreveria a dizer que, se pensar um pouco, verá que no fundo também sente alguma coisa por ele.— Você é cheio de manha.— Mas Sempere não. Acho que não respeitar o afeto e a admiração que ele sente por você seria mesquinho. E você não é mesquinha.— Isso é chantagem emocional.— Não, é a vida. Isabella me fulminou com o olhar. Eu sorri.— Pelo menos faça o favor de terminar o jantar— ordenou. Acabei de comer, limpei o prato com pão e deixei escapar um suspiro de satisfação.— O que temos de sobremesa? Depois do jantar, deixei uma Isabella pensativa, ruminando suas dúvidas e inquietudes na sala de leitura e subi para o escritório da torre. Peguei o retrato de Diego Marlasca que Salvador tinha emprestado e apoiei no pé da luminária. Em seguida, passei os olhos pela pequena cidadela de blocos, notas e folhas que tinha acumulado para o patrão. Com o frio dos talheres de Diego Marlasca ainda nas mãos, não foi difícil imaginá-lo sentado ali, contemplando a mesma vista dos telhados da Ribera. Peguei uma das páginas ao acaso e comecei a ler. Reconhecia as palavras e as frases porque tinham sido criadas por mim, mas o espírito perturbado que as alimentava me parecia mais distante que nunca. Deixei o papel cair no chão e levantei os olhos para encarar meu reflexo no vidro da janela, um estranho acima da penumbra azul que sepultava a cidade. Logo vi que naquela noite não ia conseguir trabalhar, que não seria capaz de alinhavar um único parágrafo para o patrão. Apaguei a luz da escrivaninha e fiquei sentado na sombra, ouvindo o vento arranhar as janelas e imaginando Diego Marlasca mergulhando em chamas nas águas do tanque e o momento em que as últimas borbulhas de ar escaparam de seus lábios, enquanto o líquido gelado inundava seus pulmões.
Acordei de madrugada com o corpo dolorido e encaixado na poltrona do escritório. Levantei ao som dos rangidos de duas ou três engrenagens de minha anatomia. Fui me arrastando e abri a janela de par em par. A geada fazia os terraços da cidade velha reluzirem e um céu cor de púrpura se fechava sobre Barcelona. Ao som dos sinos de Santa María del Mar, uma nuvem de asas negras levantou voo de um pombal. Um vento frio e cortante trouxe o cheiro das docas e as cinzas de carvão destiladas pelas chaminés do bairro.