O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 282

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Desci para o apartamento e fui até a cozinha preparar café. Abri o armário e fiquei atônito. Desde a chegada de Isabella, minha despensa parecia o armazém Quílez na Rambla de Catalunya. Entre o desfile de exóticas iguarias importadas pela mercearia do pai de Isabella, encontrei uma caixa de latão com biscoitos ingleses recobertos de chocolate e resolvi experimentar. Meia hora mais tarde, assim que minhas veias começaram a bombear açúcar e cafeína, meu cérebro entrou em funcionamento e tive a idéia genial de começar meu dia complicando um pouco mais, se isso fosse possível, minha existência. Assim que o comércio abrisse, faria uma visita à loja de artigos de espetáculos de mágica da Rua Princesa. — O que está fazendo acordado a essa hora? A voz de minha consciência, Isabella, me observava da beirada da porta. — Comendo biscoito. Isabella sentou à mesa e serviu uma xícara de café. Tinha cara de quem não tinha pregado o olho. — Meu pai costuma dizer que essa é a marca favorita da rainha-mãe. — Uma senhora formosa assim, como se pode ver. Isabella pegou um biscoito e mordiscou com ar ausente. — Já pensou no que vai fazer? Quer dizer, sobre o Sempere... Isabella lançou um olhar venenoso. — E você, o que vai fazer hoje? Nada de bom, garanto. — Tenho uns assuntos a resolver. — Sim... — Sim, sim, ou sim, duvido? Isabella largou a xícara na mesa e me encarou com seu ar de interrogatório sumário. — Por que nunca fala desse sei lá o quê entre você e esse sujeito, o patrão? — Entre outras coisas, para o seu bem. — Para o meu bem. Claro. Que idiota que eu sou. A propósito, esqueci de dizer que ontem o seu amigo inspetor passou por aqui. — Grandes? Estava sozinho? — Não. Acompanhado de dois capangas grandes como armários e com cara de cães farejadores. A ideia de Marcos e Castelo na minha porta produziu um nó em meu estômago. — E o que Grandes queria? — Não disse.