O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 280

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Disse que tem uma beleza clássica, que é inteligente, intensamente feminina, porque ele é brega assim mesmo, e que sente que existe uma ligação espiritual entre vocês. Isabella cravou um olhar assassino em cima de mim. — Jure que não está inventando tudo isso — disse ela. Pus a mão direita sobre o livro de receitas e levantei a esquerda. — Juro sobre As 101 melhores receitas da cozinha francesa — declarei. — Não é com essa mão que se jura. Troquei de mão e repeti o gesto com expressão de solenidade. Isabella bufou. — E o que vou fazer agora? — Não sei. O que fazem os namorados? Passear, dançar... — Mas não estou apaixonada por esse cavalheiro. Continuei degustando o confit de pato, alheio a seu olhar insistente. De repente, Isabella deu um tapa na mesa. — Faça o favor de olhar para mim. Isso tudo é culpa sua. Larguei os talheres lentamente, limpei a boca no guardanapo e olhei para ela. — O que vou fazer? — perguntou Isabella novamente. — Isso depende. Gosta de Sempere ou não? Uma nuvem de dúvida cruzou seu rosto. — Não sei. Para começar, é um pouco velho para mim. — Tem praticamente a minha idade — precisei. — No máximo, um ou dois anos a mais. Talvez três. — Ou quatro, ou cinco. Suspirei. — Está na flor da vida. E você me garantiu que preferia os mais maduros. — Não deboche. — Isabella, quem sou eu para dizer o que deve ou não fazer... — Essa é muito boa. — Deixe eu acabar. Quero dizer que existe alguma coisa entre Sempere e você. Se quiser um conselho, eu diria que deve lhe dar uma oportunidade. Só isso. Se um desses dias ele resolver dar o primeiro passo e convidá-la, digamos, para um lanche, aceite o convite. De repente vocês começam a conversar, a se conhecer melhor e ainda acabarão sendo grandes amigos; mas talvez não aconteça nada. Penso que Sempere é um homem