O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 279
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Está delirando.
— Quem está delirando é o pobre Sempere filho. Precisava ver. Por um triz não dei um
tiro em seu peito para livrá-lo da dor e da miséria que o afligem.
— Mas ele nem me dá bola — protestou Isabella.
— Porque não sabe como abrir seu coração e encontrar as palavras que expressem o
que sente. Nós, os homens, somos assim. Brutos e primários.
— Mas bem que soube encontrar as palavras certas para me dar uma bronca por ter
cometido um erro na organização da coleção dos Episódios Nacionais. Bela lábia!
— Não é a mesma coisa. Uma coisa são os trâmites burocráticos, outra, a linguagem
da paixão.
— Bobagens.
— Não há nada de bobo no amor, minha prezada assistente. Mas, mudando de
assunto, vamos jantar ou não?
Isabella tinha arrumado uma mesa à altura do festim que tinha preparado. Havia um
arsenal de pratos, travessas e copos que eu nunca tinha visto.
— Não sei por que não usa essas preciosidades, já que estão aqui. Estava tudo dentro
de umas caixas no quarto ao lado da lavanderia — disse Isabella. — Só podia mesmo ser
um homem.
Levantei uma das facas e examinei à luz das velas que Isabella tinha colocado na
mesa. Compreendi que aqueles eram os talheres de Diego Marlasca e senti que perdia
totalmente o apetite.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Isabella.
Neguei. Minha assistente serviu os pratos e ficou olhando para mim, cheia de
expectativa. Provei o primeiro bocado e sorri, aprovando.
— Muito bom — disse.
— Um pouco borrachudo, acho. A receita dizia para assar em fogo baixo por não sei
quanto tempo, mas esse seu fogão só tem fogo inexistente ou abrasador, sem meio-termo.
— Está muito bom — repeti, comendo sem fome.
Isabella continuava a me observar com o canto do olho. E continuamos a jantar em
silêncio, o tilintar dos talheres e pratos como única companhia.
— Estava falando sério sobre Sempere filho?
Concordei sem levantar os olhos do prato.
— E que mais ele falou de mim?