O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 276

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Mais que o senhor, com certeza — repliquei arrancando a xícara de suas mãos. — Deixe disso, Martín, estou forte feito um touro. — Teimoso feito uma mula, isso sim. Faça o favor de subir para casa e enfiar-se na cama. — Só vale a pena ficar na cama quando se é jovem e se está em boa companhia. — Se quiser companhia, posso procurar, mas não creio que essa seja a conjuntura cardíaca adequada para isso. — Martín, na minha idade o erotismo se limita a saborear um bom pudim ou admirar o colo das viúvas. O que me preocupa aqui é o herdeiro. Algum progresso nesse terreno? — Estamos na fase de adubar para semear. Depois tem que esperar para ver se o tempo colabora para termos uma boa colheita. Em dois ou três dias posso avaliar melhor os resultados, com sessenta ou setenta por cento de confiabilidade. Sempere sorriu, satisfeito. — Golpe de mestre mandar Isabella trabalhar aqui — disse. — Mas não acha que é um pouco jovem para meu filho? — Para ser bem sincero, quem eu acho um pouco verde é ele. Se não ficar esperto, Isabella o engole cru e sem sal em cinco minutos. Menos mal que é feito de boa massa, senão... — Como poderei agradecer? — Indo para casa e para a cama. Se precisa de alguma companhia mais picante, leve Fortunata e Jacinta. — Tem razão. Dom Benito Pérez Galdós não falha nunca. — Nem querendo. Então já para a cama. Sempere levantou. Tinha dificuldade de locomoção e respirava com esforço, aspirando o ar com um sopro rouco que era de arrepiar os cabelos. Segurei seu braço para ajudá-lo e percebi que tinha a pele fria. — Não se assuste, Martín. É o meu metabolismo que está um pouco lento. — Lento como o de Guerra e Paz, a julgar por hoje. — Uma sonequinha e fico como novo. Resolvi acompanhá-lo até o apartamento em que pai e filho viviam, em cima da livraria, para ter certeza de que ia se enfiar debaixo dos cobertores. Levamos um quarto de hora lutando contra um lance de escada. No caminho, encontramos um dos vizinhos, um amável professor do ensino médio chamado Anacleto, que dava aula de língua e literatura no Jesuítas de Caspe, voltando para casa.