PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Casamento? Está ficando doido?
— O que quero lhe dizer, e isso no fundo é idéia sua, embora não tenha se dado conta, é que precisa pelo menos convidar Isabella, hoje, amanhã ou depois, quando passar a tremedeira para não dar a impressão de que está babando, para um lanche em algum lugarzinho encantador no fim do horário de trabalho; logo vão se dar conta de que foram feitos um para o outro. Digamos o Els Quatre Gats já que lá, como os donos são meio pão-duros, a luz é bem fraquinha para economizar eletricidade, o que é sempre bom nesses casos. Peça uma boa ricota com uma bela colher de mel para a moça, que isso é bom para abrir o apetite, e em seguida empurre, como quem não quer nada, dois tragos de um moscatel, que sobe que é uma beleza e, ao mesmo tempo em que põe a mão em seu joelho, trate de deixá-la tonta com essa lábia que eu sei muito bem que você tem guardada aí, bem escondida, meu caro.— Mas não sei nada sobre ela, nem sobre os seus interesses, nem...— São os mesmos que os seus. Se interessa por livros, literatura, o cheiro desses tesouros que você tem aqui e a promessa de romance e aventura dos melodramas baratos. Tem interesse em espantar a solidão e em compreender, sem perda de tempo, que nessa droga de mundo nada vale um centavo sequer se não se tem alguém com quem compartilhar. Já sabe o essencial. O resto, pode aprender e aproveitar pelo caminho.
Sempere ficou pensativo, alternando olhares entre a xícara de café e um empregado, que aos trancos e barrancos sustentava um sorriso de vendedor de títulos da Bolsa.
— Não sei se devo agradecer ou denunciá-lo à polícia— disse finalmente. Naquele exato momento, ouviram-se os passos pesados de Sempere pai na livraria. Dois segundos depois, enfiava o rosto na porta da salinha e olhava para nós de cara fechada.
— O que é isso? A loja abandonada e você aqui de chacrinha como se fosse feriado.
E se chegar algum cliente? Ou um sem-vergonha decidido a carregar toda a mercadoria? Sempere filho suspirou, revirando os olhos.— Não tenha medo, Sr. Sempere, que os livros são a única coisa neste mundo que ninguém quer roubar— disse, piscando um olho.
Um sorriso cúmplice iluminou seu rosto. Sempere filho aproveitou a ocasião para fugir de minhas garras e escapulir para a livraria. O pai sentou a meu lado e aspirou o cheiro do café que seu filho nem tinha tocado.— O que diz o médico sobre os efeitos da cafeína para o coração?- perguntei.— Aquele ali não é capaz de encontrar um traseiro com um manual de anatomia, vai saber o que de coração?