O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 274
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Sr. Martín...
— Não tenha tanta vergonha, pois estamos entre cavalheiros e todos sabem que os
homens são o elo perdido entre o pirata e o suíno. Afinal, gosta ou não gosta?
— Bem, Isabella é uma moça cheia de graça.
— E o que mais?
— Inteligente. Simpática. Trabalhadora.
— Continue.
— E boa cristã, acho eu. Não é que seja muito praticante, mas...
— Nem me fale. Isabella gosta mais de missa do que a caixa de esmolas. As freiras,
posso garantir.
— Mas para dizer a verdade, nunca me passou pela cabeça mordê-la.
— Não lhe passou pela cabeça até que eu dei a idéia.
— Devo dizer que me parece falta de respeito falar assim dela, ou de qualquer outra, e
que deveria se envergonhar — protestou Sempere filho.
— Mea culpa — entoei, levantando as mãos num gesto de rendição. — Mas não
importa, cada um manifesta devoção à sua maneira. Sou uma criatura frívola e superficial,
por isso o enfoque malicioso, mas você, com essa aurea gravitas, é um homem de
sentimento místico e profundo. O que conta é que a moça o adora e que o sentimento é
recíproco.
— Bem...
— Nem bem nem mal. As coisas são como são, Sempere, e você é um homem
respeitável e responsável. Se fosse eu, vá lá, mas você não é homem de brincar com os
sentimentos nobres e puros de uma mulher em flor. Estou enganado?
— ... acho que não.
— Então tudo certo.
— Tudo certo o quê?
— Não está claro?
— Não.
— Hora de bancar o gavião.
— O quê?
— De paquerar ou, em linguagem científica, de arrastar a asa. Olhe Sempere, por
algum motivo estranho, séculos de suposta civilização nos conduziram a uma situação em
que não podemos mais ir derrubando as mulheres nas esquinas ou propondo casamento
sem mais nem menos. Primeiro é preciso fazer a corte.