O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 273

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Sempere olhava para mim à beira do assombro. — Mas um amor puro, hein? Atenção! Espiritual. Como uma heroína de Dickens, para deixar bem claro. Nada de frivolidades ou criancices. Isabella, embora jovem, é uma mulher. Já deve ter percebido, tenho certeza... — Agora que falou nisso. — E não estou falando apenas das formas excepcionalmente bem carnudas, se me permite a liberdade, mas desse manancial de bondade e beleza interior que traz dentro de si, esperando o momento oportuno para aflorar e fazer de algum sortudo o homem mais feliz do mundo. Sempere não sabia onde se enfiar. — E além do mais tem talentos ocultos. Fala vários idiomas. Toca piano como um anjo. Tem uma cabeça para os números de fazer inveja a Isaac Newton. E, ainda por cima, cozinha maravilhosamente. Engordei três quilos desde que começou a trabalhar para mim. Delícias que nem a Tour d'Argent... Não me diga que ainda não tinha percebido? — Bem, ela não mencionou que sabia cozinhar... — Não, estou falando da quedinha por você. — Bem, na verdade... — Sabe o que acontece? No fundo, e apesar desse ar de megera indomada que gosta de ostentar, a moça é mansa e tímida a extremos quase patológicos. A culpa é das freiras, que desnorteiam as meninas com tanta aula de costura e histórias sobre o inferno. Viva a escola livre! — Poderia jurar que ela me acha um bobalhão — garantiu Sempere. — Aí está. É uma prova irrefutável. Amigo Sempere, quando uma mulher trata você como se fosse um bobo, significa que os hormônios estão entrando em ação. — Tem certeza? — Mais do que da solidez do Banco de Espanha. Pode levar fé, pois disso entendo um pouquinho... — É o que meu pai diz. Mas o que vou fazer? — Bem, depende. Gosta da moça? — Gostar? Não sei. Como se sabe se... — É muito simples. Costuma olhar para ela disfarçadamente e sentir vontade de morder? — Morder? — O traseiro, por exemplo.