O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | 页面 277

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Como está a vida hoje, amigo Sempere? — Íngreme, dom Anacleto. Com a ajuda do professor consegui chegar ao primeiro andar com Sempere praticamente pendurado em meu pescoço. — Com sua permissão, vou descansar depois de um dia com aquele bando de primatas que tenho como alunos — anunciou o catedrático. — Ouçam o que digo, este país vai se desintegrar no prazo de uma geração. Vão se despedaçar uns aos outros como ratazanas. Com um gesto, Sempere deu a entender que não desse muita importância a dom Anacleto. — É um bom homem — murmurou —, mas faz tempestade em copo d'agua. Ao entrar na casa, assaltou-me a lembrança daquela manhã distante em que cheguei ali ensangüentado, com um exemplar de Grandes Esperanças nas mãos, e Sempere me carregou nos braços até sua casa, me ofereceu uma xícara de chocolate quente, que bebi enquanto esperávamos o médico. Ele sussurrava palavras tranquilizadoras e limpava o sangue de meu corpo com uma toalha morna e uma delicadeza que nunca ninguém tinha tido comigo. Na época, Sempere era um homem forte e, para mim, em todos os sentidos, parecia um gigante, sem o qual acredito que não tivesse sobrevivido àqueles anos de poucas alegrias. Pouco ou nada restava daquela fortaleza quando o segurei em meus braços para ajudá-lo a se deitar e o cobri com um par de cobertores. Sentei a seu lado e peguei sua mão sem saber o que dizer. — Ouça, se vamos desatar a chorar, os dois, é melhor que vá embora — disse ele. — Trate de se cuidar, ouviu bem? — Como se fosse de porcelana, não tenha medo. Fiz que sim e fui em direção à saída. — Martín? Parei na soleira da porta e virei o rosto. Sempere me olhava com a mesma preocupação com que tinha me olhado na manhã em que perdi alguns dentes boa parte de minha inocência. Fui embora antes que perguntasse o que estava acontecendo comigo.