O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 268

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA simplesmente reorganizando as finanças. Mas acho muito difícil que uma pessoa resolva reorganizar suas finanças e transfira quase 100 mil francos de manhã e apareça queimada viva à tarde. Não creio que esse dinheiro tenha ido parar em algum fundo misterioso. Hoje em dia, não há nada que me convença de que o dinheiro não foi parar nas mãos de Jacó Corbera e Irene Sabino. Pelo menos de início, pois acho que no fim das contas ela não viu um centavo. Jacó sumiu com todo o dinheiro. Para sempre. — E o que aconteceu com ela, então? — Esse é outro dos pontos que me fazem pensar que Jacó passou Roures e Irene Sabino para trás. Pouco depois da morte de Marlasca, Roures abandonou o negócio do além-túmulo e abriu uma loja de artigos de magia na Rua Princesa. Que eu saiba, continua lá até hoje. Irene Sabino trabalhou mais alguns anos em cabarés e locais de categoria cada vez mais baixa. A última coisa que ouvi a seu respeito foi que estava se prostituindo no Raval e que vivia na miséria. Obviamente, não ficou com um único franco daqueles 100 mil. Nem Roures. — E Jacó? — O mais provável é que tenha abandonado o país com nome falso e esteja vivendo confortavelmente de rendas em algum lugar. Mas a verdade é que tudo aquilo, em vez de esclarecer as coisas, levantava mais questões. Salvador deve ter percebido isso em meu olhar ansioso e lançou um sorriso de pena. — Valera e seus amigos na Prefeitura conseguiram que a imprensa divulgasse a versão de um acidente. Ele resolveu a questão com um funeral em grande estilo para não turvar as águas dos negócios do escritório que, em grande parte, eram também da Prefeitura e da Câmara dos Deputados, e passou por cima do estranho comportamento do Sr. Marlasca nos últimos 12 meses de sua vida, desde que abandonou a família e resolveu adquirir uma casa em ruínas numa parte da cidade em que nunca, em toda a sua vida, tinha colocado os pés bem calçados, para dedicar-se, segundo o antigo sócio, a escrever. — Valera disse o que Marlasca queria escrever? — Um livro de poesia ou algo assim. — E acreditou nele? — Já vi coisas muito estranhas em meu trabalho, amigo, mas advogados cheios de dinheiro que abandonam tudo para escrever sonetos não fazem parte do repertório. — E então? — Então o razoável seria esquecer o assunto e fazer o que me diziam.