O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 267

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Que desapareceu no mesmo dia da morte de Marlasca com o saldo de uma conta pessoal que o advogado tinha no Banco Hispano Colonial, conta essa que sua esposa desconhecia totalmente. — Cem mil francos franceses — indiquei. Salvador me olhou, intrigado. — Como sabe disso? — Não importa. O que Marlasca estava fazendo no terraço do Depósito das Águas? Não é exatamente um lugar de passagem. — Esse é outro ponto confuso. Encontramos uma agenda no escritório de Marlasca que indicava que ele teria um encontro marcado naquele lugar, às cinco da tarde. Pelo menos era o que parecia. Na agenda havia apenas um horário, um lugar e uma inicial. Um "C". Provavelmente Corbera. — O que acha que aconteceu então? — perguntei. — O que eu acho, e o que a evidência sugere, é que Jacó enganou Irene Sabino para que manipulasse Marlasca. Deve saber que o advogado estava totalmente obcecado por todas essas superstições de sessões espíritas, sobretudo depois da morte do filho. Jacó tinha um sócio, Damián Roures, que andava metido nesses ambientes. Um farsante de cabo a rabo. Entre os dois, e com a ajuda de Irene Sabino, conseguiram enrolar Marlasca, prometendo que poderia estabelecer contato com o menino no reino dos espíritos. Marlasca era um homem desesperado e disposto a acreditar em qualquer coisa. Aquele trio de vermes tinha tramado o negócio perfeito, até que Jacó ficou mais ganancioso do que o previsto. Há quem diga que a Sabino não agia de má-fé, que estava genuinamente apaixonada por Marlasca e que acreditava em tudo aquilo, tanto quanto ele. A mim, essa história não convence, mas isso é irrelevante no que diz respeito ao acontecido. Jacó ficou sabendo que Marlasca dispunha daquela quantia no banco e resolveu passar Irene para trás, desaparecendo com o dinheiro e deixando um rastro de confusão. O encontro marcado na agenda pode perfeitamente ser uma pista falsa plantada pela Sabino ou por Jacó. Não havia evidência alguma de que o próprio Marlasca tivesse escrito aquilo. — E de onde vinham os 100 mil francos que Marlasca tinha no Hispano Colonial? — O próprio Marlasca tinha depositado a quantia, em dinheiro vivo, um ano antes. Não tenho nem a mais remota idéia da forma como arranjou uma quantia dessas. Tudo que sei é que o que restava foi retirado, em dinheiro, na manhã do dia em que Marlasca morreu. Os advogados apressaram-se a dizer que o dinheiro tinha sido transferido para uma espécie de fundo tutelado e que não tinha desaparecido, que Marlasca estava