PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Mas não foi o que fez.
— Não. E não porque fosse um herói ou um imbecil. Fiz isso porque cada vez que via aquela pobre mulher, a viúva de Marlasca, minhas tripas davam um nó e não ia conseguir me olhar no espelho se não fizesse o que era supostamente pago para fazer. Apontou o cenário miserável e frio que lhe servia de lar e riu.— Pode acreditar que, se soubesse, teria preferido ser um covarde e não sair da linha. Não posso dizer que não me avisaram na Chefatura. Morto e enterrado o advogado, era hora de virar a página e dedicar nosso tempo a perseguir anarquistas mortos de fome e professores de idéias muito suspeitas.— Enterrado, você disse... Onde está enterrado Diego Marlasca?— Acho que no mausoléu familiar do cemitério de Sant Gervasi, não muito longe da casa onde mora a viúva. Posso perguntar por que tanto interesse por esse assunto? E não venha me dizer que sua curiosidade foi despertada apenas pelo fato de morar na casa da torre.— É difícil de explicar.— Se quer um conselho de amigo, olhe para mim e já vá se prevenindo: deixe isso para lá...— Bem que gostaria. O problema é que essa história não me larga. Salvador me olhou longamente e fez que sim. Pegou um papel e anotou um número.— Esse é o telefone dos vizinhos de baixo. São gente boa e é o único telefone em todo o prédio. Pode mandar me chamar ou deixar recado. E tome cuidado. Jacó desapareceu do panorama há muitos anos, mas ainda tem gente que não tem nenhum interesse em remexer nesse assunto. Cem mil francos é muito dinheiro. Aceitei o número e guardei o papel.— Agradeço.— De nada. Afinal, o que mais podem me fazer?— Não teria por acaso uma fotografia de Diego Marlasca? Não encontrei nenhuma em toda a casa.— Sei lá... Acho que devo ter alguma. Deixe ver. Salvador foi até uma escrivaninha no canto da sala e tirou uma caixa de latão cheia de papéis.— Ainda guardo coisas desse caso. Como pode ver, nem os anos de isolamento...
Olhe só. Quem me deu essa foto foi a viúva.