PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Marlasca tivesse dado oportunidade a mais de uma nota de falecimento na imprensa da cidade e que seu obituário fosse matéria de capa. Os assistentes regressaram com vários volumes, que depositaram numa ampla escrivaninha. Dividimos a tarefa e, entre os cinco presentes, encontramos o obituário de dom Diego Marlasca numa manchete, como imaginamos. A edição era de 23 de novembro de 1904.— Habemus cadáver— anunciou Brotons, que foi o descobridor. Havia quatro anúncios fúnebres dedicados a Marlasca. Um da família, outro do escritório de advocacia, outro do Colégio de Advogados de Barcelona e o último da associação cultural do Ateneu Barcelonés.
— É o que acontece com quem é rico. Morre cinco ou seis vezes— comentou dom Basilio.
Os anúncios em si não tinham maior interesse. Preces pela alma imortal do falecido, indicações de que o funeral seria apenas para os íntimos, elogios grandiosos a um grande cidadão, erudito e membro insubstituível da sociedade barcelonesa etc.
— O que lhe interessa deve estar nas edições de um ou dois dias antes ou depois— indicou Brotons.
Começamos a examinar os jornais da semana do falecimento do advogado e encontramos uma seqüência de notícias relacionadas a Marlasca. A primeira anunciava que o distinto defensor de causas tinha falecido num acidente. Dom Basilio leu o texto em voz alta.
— Foi redigido por um orangotango— sentenciou.— Três parágrafos repetitivos que não dizem nada e uma explicação final dizendo que a morte foi acidental, mas sem esclarecer que tipo de acidente.— Temos aqui uma coisa mais interessante— disse Brotons. Um artigo do dia seguinte noticiava que a polícia estava investigando as circunstâncias do acidente, para apontar com exatidão o que tinha acontecido. O mais interessante era a menção à parte dos autos que indicava a causa da morte, afirmando que Marlasca tinha morrido afogado.— Afogado?— interrompeu dom Basilio.— Como? Onde?— A matéria não esclarece. Provavelmente tiveram que cortar a notícia para incluir uma urgente e extensa apologia à dança sardana que abre em três colunas sob o título de " Ao som da flauta tenor: espírito e têmpera "— observou Brotons.
— Informa quem estava encarregado da investigação?— perguntei.