O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 259

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 28 Os arquivos do jornal estavam localizados num dos porões do edifício, sob o andar que abrigava todo o maquinário da rotativa, um engenho de tecnologia pós-vitoriana que parecia um cruzamento de uma monstruosa locomotiva a vapor com uma máquina de fabricar relâmpagos. — Apresento-lhe a rotativa, mais conhecida como Leviatã. Olho nela, pois dizem que já engoliu mais de um desprevenido — disse dom Basilio. — Como Jonas e a baleia, mas em pedaços. — Não vamos exagerar. — Um dia desses podemos jogar esse novo bolsista, o que diz que é sobrinho de Macià e se faz de sabichão — propôs Brotons. — Marque dia e hora e comemoraremos com um cap-i-pota 1 — concordou dom Basilio. 1 Literalmente a cabeça e pata, em catalão. Trata-se de um prato típico da Catalunha, uma terrinha de cabeça de pé de porco, com chouriços, aipo, cenoura, tomate, pimentão amarelo, cebola, tempetos e uma cálice de xerez, servida em fatias. (N. da T.) Os dois caíram na risada como dois colegiais. Feitos um para o outro, pensei eu. A sala do arquivo tinha a forma de um labirinto de corredores formados por estantes de 3 metros de altura. Duas criaturas pálidas com jeito de não terem saído daquele porão nos últimos 15 anos atuavam como assistentes de Brotons. Ao vê-lo, vieram a seu encontro como mascotes fiéis à espera de suas ordens. Brotons lançou um olhar interrogativo. — O que estamos procurando? — Mil novecentos e quatro. Morte de um advogado chamado Diego Marlasca. Membro proeminente da sociedade barcelonesa, sócio fundador do escritório de advocacia Valera, Marlasca e Sentís. — Mês? — Novembro. A um gesto de Brotons, os dois assistentes partiram em busca dos exemplares correspondentes ao mês de novembro de 1904. Naquela época, a morte estava tão presente na atmosfera dos dias que a maioria dos jornais ainda abria a primeira página com grandes anúncios fúnebres. Era de se supor que um personagem importante como