O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 259
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Os arquivos do jornal estavam localizados num dos porões do edifício, sob o andar
que abrigava todo o maquinário da rotativa, um engenho de tecnologia pós-vitoriana que
parecia um cruzamento de uma monstruosa locomotiva a vapor com uma máquina de
fabricar relâmpagos.
— Apresento-lhe a rotativa, mais conhecida como Leviatã. Olho nela, pois dizem que
já engoliu mais de um desprevenido — disse dom Basilio. — Como Jonas e a baleia, mas
em pedaços.
— Não vamos exagerar.
— Um dia desses podemos jogar esse novo bolsista, o que diz que é sobrinho de
Macià e se faz de sabichão — propôs Brotons.
— Marque dia e hora e comemoraremos com um cap-i-pota 1 — concordou dom
Basilio.
1
Literalmente a cabeça e pata, em catalão. Trata-se de um prato típico da Catalunha, uma terrinha de
cabeça de pé de porco, com chouriços, aipo, cenoura, tomate, pimentão amarelo, cebola, tempetos e
uma cálice de xerez, servida em fatias. (N. da T.)
Os dois caíram na risada como dois colegiais. Feitos um para o outro, pensei eu.
A sala do arquivo tinha a forma de um labirinto de corredores formados por estantes
de 3 metros de altura. Duas criaturas pálidas com jeito de não terem saído daquele porão
nos últimos 15 anos atuavam como assistentes de Brotons. Ao vê-lo, vieram a seu
encontro como mascotes fiéis à espera de suas ordens. Brotons lançou um olhar
interrogativo.
— O que estamos procurando?
— Mil novecentos e quatro. Morte de um advogado chamado Diego Marlasca. Membro
proeminente da sociedade barcelonesa, sócio fundador do escritório de advocacia Valera,
Marlasca e Sentís.
— Mês?
— Novembro.
A um gesto de Brotons, os dois assistentes partiram em busca dos exemplares
correspondentes ao mês de novembro de 1904. Naquela época, a morte estava tão
presente na atmosfera dos dias que a maioria dos jornais ainda abria a primeira página
com grandes anúncios fúnebres. Era de se supor que um personagem importante como