O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 26

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
do corredor e, com uma chave que usava pendurada no pescoço, abriu a porta e me deu passagem. Avancei alguns passos, tentando forçar a vista. Ouvi a porta se fechar atrás de mim e, quando me virei, a menina tinha desaparecido. Ouvi o mecanismo da fechadura girar e entendi que estava trancado. Fiquei ali quase um minuto, imóvel. Lentamente, meus olhos se acostumaram à penumbra e o contorno do aposento se materializou a meu redor. O quarto tinha sido coberto do chão ao teto com um tecido negro. De um lado, adivinhavase uma série de estranhos artefatos que nunca tinha visto e que não fui capaz de decidir se eram sinistros ou tentadores. Um amplo leito circular repousava sob uma cabeceira que parecia uma grande teia de aranha. Da teia, pendiam dois candelabros, nos quais ardiam dois círios negros, desprendendo aquele cheiro de cera que costuma impregnar capelas e velórios. Ao lado da cama havia um biombo de treliça e desenho sinuoso. Senti um calafrio. Aquele lugar era idêntico ao quarto que eu tinha criado para minha inefável vampira Chloé em suas aventuras de Os Mistérios de Barcelona. Algo naquela história cheirava mal. Já estava disposto a arrombar a porta quando percebi que não estava sozinho. Parei, gelado. Uma silhueta se perfilava atrás do biombo. Dois olhos brilhantes me observavam e pude ver dedos brancos e afilados ornados por longas unhas negras surgirem entre os orifícios da treliça. Engoli em seco.— Chloé?— murmurei. Era ela, a minha Chloé. A operística e insuperável femme fatale de meus contos em carne e lingerie. Tinha a pele mais pálida que jamais tinha visto, e o cabelo negro e brilhante, cortado em ângulo reto, emoldurava seu rosto. Seus lábios estavam pintados com algo que parecia sangue fresco, e círculos esfumaçados de sombra escura rodeavam seus olhos verdes. Movia-se como um felino, como se aquele corpo apertado num corselete de escamas reluzentes fosse de água e tivesse aprendido a enganar a gravidade. Em sua garganta esguia e interminável enrolava-se uma fita de veludo escarlate, da qual pendia um crucifixo invertido. Incapaz de respirar, vi que se aproximava lentamente, meus olhos grudados naquelas pernas desenhadas com traço impossível, sob meias de seda que provavelmente custavam mais do que eu ganhava em um ano, apoiadas em sapatos pontiagudos como punhais, presos a seus tornozelos por fitas de seda. Em toda a minha vida nunca tinha visto nada mais belo, nem que me desse tanto medo.
Deixei-me levar por aquela criatura até a cama, onde caí, literalmente, de bunda. A luz das velas acariciava o perfil de seu corpo. Meu rosto e meus lábios estavam na altura de seu ventre nu e, sem nem perceber o que estava fazendo, dei-lhe um beijo sob o umbigo e