O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 255
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Se alguma vez na vida precisei de um ombro amigo que me amparasse, foi naquela
hora. O velho edifício de La Voz de la Industria despontava atrás dos muros do cemitério.
Rumei para lá com a esperança de encontrar meu velho mestre, dom Basilio, uma dessas
almas raras, imunes à estupidez do mundo, que sempre tinha um bom conselho a
oferecer. Ao entrar na sede do jornal, descobri que ainda reconhecia a maioria do pessoal.
Parecia que não tinha se passado nem um minuto desde que tinha ido embora de lá, anos
atrás. Os que me reconheceram, por sua vez, olhavam para mim com receio e desviavam
os olhos para não ter que me cumprimentar. Atravessei a sala da redação e fui direto para
o escritório de dom Basilio, que ficava no fundo. A sala estava vazia.
— Está procurando alguém?
Virei e dei de cara com Roseli, um dos redatores que já me pareciam velhos, quando
eu trabalhava lá, ainda moleque, e que tinha assinado a venenosa resenha publicada pelo
jornal sobre Os Passos do Céu, em que ele me qualificava de "redator de classificados".
— Sr. Roseli, sou eu, Martín. David Martín. Não se lembra de mim?
Roseli levou vários minutos me examinando, fingindo grande dificuldade para
identificar quem eu era, até que, finalmente, fez que sim.
— E dom Basilio?
— Foi embora há dois meses. Vai encontrá-lo na redação de La Vanguardia. Dê-lhe
lembranças minhas se estiver com ele.
— Farei isso.
— Sinto muito por seu livro — disse Roseli com um sorriso complacente. Atravessei a
redação navegando entre olhares esquivos, sorrisos tortos e murmúrios em clave de fel. O
tempo cura tudo, pensei, menos a verdade.
Meia hora mais tarde, um táxi me deixava na porta da sede do jornal La Vanguardia,
na Rua Pelayo. Ao contrário da sinistra decrepitude de meu antigo jornal, tudo ali tinha um
ar de distinção e opulência. Identifiquei-me no balcão da portaria e um rapazola com cara
de estagiário, que me fazia pensar em mim mesmo nos meus anos de Grilo Falante, foi
enviado para avisar dom Basilio da visita. A presença leonina de meu velho mestre não
tinha se apequenado com o passar dos anos. Apesar do tempo e com a bonificação do
novo vestuário adequado ao cenário primoroso, poderia dizer que dom Basilio tinha uma
figura tão formidável quanto em seus tempos de La Voz de la Industria. Seus olhos se