PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
O patrão deixou as pálpebras caírem e mergulhou num longo silêncio. Virou e afastouse alguns passos em direção às portas da necrópole. Observei sua silhueta escura recortada contra o jardim de mármore e sua sombra imóvel sob a chuva. Senti medo, um temor turvo que nascia em minhas entranhas e inspirava um desejo infantil de pedir perdão e aceitar qualquer castigo que me desse, desde que não tivesse que suportar aquele silêncio. E senti nojo. De sua presença e especialmente de mim mesmo.
O patrão deu meia-volta e aproximou-se de novo. Parou a alguns centímetros de mim e inclinou o rosto sobre o meu. Senti seu hálito frio e me perdi em seus olhos negros, sem fundo. Dessa vez, sua voz e tom eram gélidos, desprovidos daquela humanidade prática e estudada com que pontilhava seus discursos e gestos.
— Vou dizê-lo só uma vez. Você vai cumprir sua parte, e eu, a minha. Isso é a única coisa que pode e tem que sentir.
Não me dei conta de que estava concordando repetidamente, até que o patrão extraiu o maço de folhas do bolso e estendeu em minha direção. Deixou-as cair, antes que eu pudesse pegá-las. O vento carregou-as num redemoinho e vi quando se espalharam até a entrada do campo-santo. Corri para tentar resgatá-las da chuva, mas algumas tinham caído em poças e sangravam na água, as palavras deslizando do papel em rios de tinta. Reuni todas elas num maço de papel molhado. Quando levantei os olhos e vasculhei a meu redor, o patrão tinha sumido.