O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 253
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— É justamente o que estou fazendo.
— Basta convencer um santarrão de que está livre de todo pecado para que comece a
atirar pedras, ou bombas, no maior entusiasmo. E, de fato, não é preciso um grande
esforço, pois para convencer basta um mínimo de ânimo e intimidação. Não sei se estou
me fazendo entender.
— Maravilhosamente. Seus argumentos têm a sutileza de uma caldeira siderúrgica.
— Não creio que esse tom desdenhoso me agrade, Martín. Acaso lhe parece que não
estou à altura de sua pureza moral ou intelectual?
— Em absoluto — murmurei, covardemente.
— Então o que é que está espicaçando a sua consciência, caro amigo?
— O de sempre. Não tenho muita certeza de ser o niilista de que necessita.
— Ninguém é. O niilismo é uma pose, não uma doutrina. Ponha a chama de uma vela
sob os testículos de um niilista e verá a rapidez com que ele vai descobrir a luz da
existência. O que está lhe incomodando é outra coisa.
Levantei os olhos e resgatei o tom mais desafiante que era capaz de usar, encarando
o patrão nos olhos.
— No mínimo, o que me incomoda é que posso entender tudo o que diz, mas não sou
capaz de sentir.
— E por acaso está sendo pago para sentir?
— Às vezes sentir e pensar são a mesma coisa. A idéia é sua, não minha.
O patrão sorriu numa de suas pausas dramáticas, como um mestre-escola que
prepara a estocada fatal para calar um aluno rebelde e malcriado.
— O que você sente, Martín?
A ironia e o desprezo que haviam em sua voz me encheram de valentia e abri a
torneira da humilhação acumulada durante meses à sua sombra. Raiva e vergonha de
sentir-me amedrontado por sua presença e de aceitar seus discursos envenenados. Raiva
e vergonha de que ele tivesse demonstrado que, embora eu preferisse acreditar que tudo o
que havia dentro de mim era desesperança, minha alma era tão mesquinha e miserável
quanto o seu humanismo de sarjeta. Raiva e vergonha de sentir, de saber que sempre
tinha razão, sobretudo quando aceitar isso era mais doloroso.
— Eu lhe fiz uma pergunta, Martín. O que sente afinal?
— Sinto que o melhor seria deixar as coisas como estão e devolver seu dinheiro. Sinto
que, sejam quais forem os seus objetivos com esse projeto absurdo, prefiro não fazer parte
disso. E, sobretudo, sinto tê-lo conhecido.