O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 252

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Não sei. Acho que simplifica as coisas de um modo perigoso. Todo o seu discurso parece um simples mecanismo para gerar e dirigir ódio. — O adjetivo que ia empregar não era perigoso, era repugnante, mas não levarei isso em conta. — Por que devemos reduzir a fé a um ato de repúdio e obediência cega? Não é possível acreditar em valores de aceitação, de concórdia? O patrão sorriu, divertido. — Pode-se acreditar em qualquer coisa, Martín, no livre mercado ou no patinho feio. Até acreditar que não se acredita em nada, como faz você, que é maior das credulidades. Tenho razão ou não? — O cliente sempre tem razão. Qual é o furo que viu na história? — Sinto falta de um vilão. A maioria de nós, mesmo que não percebamos, os definimos por oposição a algo ou a alguém, muito mais do que a favor de algo ou de alguém. É mais fácil reagir que agir, por assim dizer. Nada estimula tanto a fé e o zelo do dogma como um bom antagonista. E quanto mais inverossímil, melhor. — Achei que esse papel poderia funcionar melhor em abstrato. O antagonista seria o não-crente, o estranho, o que está fora do grupo. — Sim, mas gostaria que concretizasse mais. É difícil odiar uma idéia. Requer certa disciplina intelectual e um espírito obsessivo e doentio que não muito comum. É muito mais fácil odiar alguém cujo rosto é reconhecível e quem podemos culpar por tudo aquilo que nos incomoda. Não precisa ser no personagem individual. Pode ser uma nação, uma raça, um grupo... Não importa. Até eu me deixava dominar pelo cinismo limpo e sereno do patrão. Suspirei, abatido. — Não venha se fazer de cidadão modelo, Martín. Para você dá no mesmo e precisamos de um vilão nesse folhetim. Deveria saber disso melhor do que ninguém. Não há drama sem conflito. — Que tipo de vilão seria de seu agrado? Um tirano invasor? Um falso profeta? O homem do saco? — Deixo a embalagem por sua conta. Qualquer um dos suspeitos de sempre está ótimo para mim. Uma das funções do nosso vilão será permitir que adotemos o papel de vítimas e reivindiquemos nossa superioridade moral. Projetaremos nele tudo o que somos incapazes de reconhecer em nós mesmos e que demonizamos de acordo com nossos interesses particulares. É a aritmética básica do farisaísmo. Já disse que deveria ler a Bíblia. Todas as respostas que procura estão lá.