O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 251

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Não estava disposto a lhe abrir aquela porta de camaradagem. Virei para fugir de seu gesto de afeto e compaixão e apertei os olhos para conter lágrimas de raiva. Comecei a caminhar rumo à saída, sem esperar por ele. O patrão esperou alguns segundos e depois resolveu me seguir. Caminhou a meu lado em silêncio até chegarmos à porta principal. Parei ali e fitei-o com impaciência.— E então? Tem algum comentário? O patrão ignorou meu tom vagamente hostil e sorriu pacientemente.— O trabalho é excelente.— Porém...— Se tivesse que fazer uma observação, seria que acertou na mosca ao construir toda a história do ponto de vista de uma testemunha dos fatos, que se sente vítima e fala em nome de um povo que espera por seu guerreiro salvador. Quero que continue por esse caminho.— Não lhe parece forçado, artificioso...?— Ao contrário. Nada nos leva a acreditar mais que o medo, a certeza de estarmos ameaçados. Quando nos sentimos vítimas, todas as nossas ações e crenças são legitimadas, por mais questionáveis que sejam. Nossos oponentes, ou simplesmente nossos vizinhos, deixam de estar no mesmo nível que nós e se convertem em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos transformarmos em defensores. A inveja, a cobiça ou o ressentimento que nos movem são santificados, pois nos convencemos de estar agindo em defesa própria. O mal, a ameaça, sempre está no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente em alguma coisa é o medo. O medo de perder nossa identidade, nossa vida, nossa condição ou nossas crenças. O medo é a pólvora, e o ódio, o pavio. O dogma, em última instância, é apenas um fósforo aceso. É nesse ponto, a meu ver, que sua trama tem um ou outro furo.— Explique uma coisa. Está procurando por fé ou por dogma?— Não basta que as pessoas acreditem. Precisam acreditar no que queremos que acreditem. E não podem questioná-lo e nem ouvir a voz de quem quer que ouse questionar. O dogma tem que fazer parte da própria identidade. Qualquer pessoa que o questione é nosso inimigo. É o mal. E estamos em nosso direito, e dever, ao enfrentá-lo e destruí-lo. Esse é o único caminho da salvação, acreditar para sobreviver. Suspirei e desviei os olhos, concordando a contragosto.— Vejo que não está convencido, Martín. Pode dizer o que pensa. Acha que estou equivocado?