O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 250
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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— Bom dia, pai — disse.
Contemplei a chuva negra deslizando sobre o rosto da Pietà, o som da chuva batendo
nas lápides, e sorri à saúde daqueles amigos que ele nunca teve e daquele país que o
mandou para a morte em vida a fim de enriquecer quatro caciques que nunca nem
souberam que ele existia. Sentei na lápide e pus a mão no mármore.
— Quem poderia dizer, hein, pai?
Meu pai, que tinha vivido uma existência à beira da miséria, descansava eternamente
numa tumba de burguês. Quando criança, nunca tinha entendido por que o jornal tinha
pago um funeral com padre elegante e carpideiras, com flores e um túmulo de importador
de açúcar. Ninguém me contou que Vidal pagou as pompas do homem que tinha morrido
em seu lugar, embora eu sempre tivesse suspeitado disso, atribuindo o gesto à bondade e
generosidade infinitas com que o céu abençoara o meu mentor e ídolo, o grande dom
Pedro Vidal.
— Tenho que lhe pedir perdão, pai. Eu o odiei durante muitos anos por ter me deixado
aqui sozinho. Pensava que tinha tido a morte que procurava. Por isso nunca vim vê-lo.
Perdoe-me.
Meu pai nunca gostou de lágrimas. Acreditava que um homem nunca chora pelos
outros, mas por si mesmo. E se o fazia, era um covarde e não merecia piedade alguma.
Não quis chorar por ele e, mais uma vez, traí-lo.
— Gostaria tanto que visse meu nome num livro, apesar de não poder ler. Gostaria
que estivesse aqui, comigo, para ver que seu filho estava conseguindo abrir caminho e
fazendo algumas das coisas que nunca o deixaram fazer. Gostaria de conhecê-lo, pai, e
que você me conhecesse. Transformei você num estranho para esquecê-lo e agora o
estranho sou eu.
Não o ouvi chegar, mas quando levantei a cabeça, vi que o patrão me observava em
silêncio a apenas alguns metros. Levantei e fui até ele como um cachorrinho amestrado.
Fiquei me perguntando se sabia que meu pai estava enterrado ali e se tinha marcado o
encontro naquele lugar de propósito. Creio que era possível ler meu rosto como um livro
aberto, pois o patrão negou e colocou a mão em meu ombro.
— Não sabia, Martín. Sinto muito.