O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 250

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 26 — Bom dia, pai — disse. Contemplei a chuva negra deslizando sobre o rosto da Pietà, o som da chuva batendo nas lápides, e sorri à saúde daqueles amigos que ele nunca teve e daquele país que o mandou para a morte em vida a fim de enriquecer quatro caciques que nunca nem souberam que ele existia. Sentei na lápide e pus a mão no mármore. — Quem poderia dizer, hein, pai? Meu pai, que tinha vivido uma existência à beira da miséria, descansava eternamente numa tumba de burguês. Quando criança, nunca tinha entendido por que o jornal tinha pago um funeral com padre elegante e carpideiras, com flores e um túmulo de importador de açúcar. Ninguém me contou que Vidal pagou as pompas do homem que tinha morrido em seu lugar, embora eu sempre tivesse suspeitado disso, atribuindo o gesto à bondade e generosidade infinitas com que o céu abençoara o meu mentor e ídolo, o grande dom Pedro Vidal. — Tenho que lhe pedir perdão, pai. Eu o odiei durante muitos anos por ter me deixado aqui sozinho. Pensava que tinha tido a morte que procurava. Por isso nunca vim vê-lo. Perdoe-me. Meu pai nunca gostou de lágrimas. Acreditava que um homem nunca chora pelos outros, mas por si mesmo. E se o fazia, era um covarde e não merecia piedade alguma. Não quis chorar por ele e, mais uma vez, traí-lo. — Gostaria tanto que visse meu nome num livro, apesar de não poder ler. Gostaria que estivesse aqui, comigo, para ver que seu filho estava conseguindo abrir caminho e fazendo algumas das coisas que nunca o deixaram fazer. Gostaria de conhecê-lo, pai, e que você me conhecesse. Transformei você num estranho para esquecê-lo e agora o estranho sou eu. Não o ouvi chegar, mas quando levantei a cabeça, vi que o patrão me observava em silêncio a apenas alguns metros. Levantei e fui até ele como um cachorrinho amestrado. Fiquei me perguntando se sabia que meu pai estava enterrado ali e se tinha marcado o encontro naquele lugar de propósito. Creio que era possível ler meu rosto como um livro aberto, pois o patrão negou e colocou a mão em meu ombro. — Não sabia, Martín. Sinto muito.