O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 249

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
olhos. Não piscou até eu chegar bem perto e, sem saber o que fazer, estendi-lhe a mão. Fazia frio e o vento cheirava a cal e enxofre.
— Os visitantes ocasionais acreditam ingenuamente que sempre faz sol e calor nessa cidade— disse o patrão.— Mas posso dizer que, mais cedo ou mais tarde, Barcelona sempre acaba refletindo no céu a sua alma antiga, turva e escura.— Deveria escrever guias turísticos em vez de textos religiosos— sugeri.— Dá no mesmo. Que tal esses dias de paz e tranqüilidade? O trabalho avançou?
Tem boas notícias para mim?
Abri o paletó e estendi um maço de páginas para ele. Penetramos no recinto do cemitério procurando um lugar abrigado da chuva. O patrão escolheu um velho mausoléu que dispunha de uma cúpula sustentada por colunas de mármore e rodeada de anjos de rosto afilado e dedos demasiadamente longos. Sentamos num banco de pedra fria. O patrão dedicou-me um de seus sorrisos caninos e piscou o olho, suas pupilas amarelas e brilhantes fechando-se num ponto negro, no qual podia ver refletido o meu rosto pálido e visivelmente perturbado.— Relaxe, Martín. Está dando importância demais aos acessórios. O patrão começou a ler as páginas que tinha lhe dado.— Acho que vou dar uma volta para deixá-lo ler— disse eu. Corelli concordou sem levantar os olhos das páginas.— Não vá escapar— murmurou. Afastei-me dali tão rápido quanto pude sem deixar evidente que o estava fazendo e me perdi entre as Ruas e os rodeios da necrópole. Evitei obeliscos e sepulcros, penetrando no coração do cemitério. A lápide ainda estava lá, marcada por um jarro vazio ostentando um esqueleto de flores petrificadas. Vidal tinha pago o enterro e até encomendado de um escultor de certa reputação na associação dos agentes funerários uma Pietà, que guardava o túmulo erguendo os olhos para o Céu, com as mãos no peito em atitude de súplica. Ajoelhei-me diante da lápide e limpei o musgo que cobria as letras gravadas com cinzel.
JOSÉ ANTONIO MARTÍN CLARÉS 1875-1908
Herói da guerra das Filipinas. Seu país e seus amigos nunca o esquecerão