O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 256
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
iluminaram de alegria ao me ver e, rompendo seu férreo protocolo, recebeu-me com um
abraço que poderia facilmente ter quebrado duas ou três costelas se não houvesse público
presente pois, contente ou não, dom Basilio tinha que manter as aparências e a reputação.
— Então estamos nos aburguesando, hein, dom Basilio?
Meu antigo chefe deu de ombros, fazendo um gesto que desdenhava da nova
decoração que o rodeava.
— Não se deixe impressionar.
— Não seja modesto, dom Basilio, isso aqui é a jóia da coroa. Já está botando todo
mundo na linha?
Dom Basilio pegou seu eterno lápis vermelho e apontou para mim, piscando o olho.
— Chego a quatro por semana.
— Dois menos do que na Voz.
— Dê-me um pouco de tempo, que tenho por aqui algumas eminências e pontuam
como umas antas e pensam que lide é um aperitivo típico da província de Logroño.
Apesar de suas palavras, era evidente que dom Basilio estava à vontade em novo lar
e tinha, inclusive, uma aparência mais saudável.
— Não me diga que veio pedir trabalho, porque sou capaz de dar — ameaçou.
— Agradeço muito, dom Basilio, mas sabe que larguei as vestes e que o jornalismo
não é o meu negócio.
— Então diga em que esse velho rabugento pode lhe ajudar.
— Preciso de informações sobre um caso antigo para uma história em que estou
trabalhando: a morte de um advogado de renome chamado Marlasca, Diego Marlasca.
— E estamos falando de quando?
— Mil novecentos e quatro.
Dom Basilio suspirou.
— Está achando que vou longe mesmo! Muita água passou debaixo da ponte desde
então.
— Não o suficiente para esclarecer as coisas — comentei.
Dom Basilio pôs a mão em meu ombro e indicou que o seguisse até o interior da
redação.
— Não se preocupe, veio ao lugar certo. Essa boa gente mantém um arquivo de fazer
inveja ao Vaticano. Se alguma coisa saiu na imprensa, estará aqui. Além do mais, o chefe
do arquivo é meu amigo. Mas vou logo avisando que, comparado com ele, sou uma