O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | 页面 246

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Soltou meu braço e abaixou os olhos.— Desculpe. Não tinha ânimo para brigar com ninguém, e menos ainda com minha obstinada assistente, de modo que me deixei levar até uma das poltronas da galeria e desmoronei como um saco de ossos. Isabella sentou diante de mim e ficou me olhando, alarmada.— O que aconteceu? Sorri para tranqüilizá-la.— Nada. Não houve nada. Não ia me dar um pouco do tal caldo?— É para já. Saiu em disparada para a cozinha e pude ouvir seu vaivém atarefado. Respirei fundo e fechei os olhos até ouvir os passos de Isabella se aproximando. Estendeu uma tigela fumegante de dimensões exageradas.— Parece um penico— disse.— Beba e pare de dizer besteira. Aspirei o perfume do caldo. Cheirava bem, mas não quis dar mostras de excessiva docilidade.— Cheiro estranho— disse.— O que tem aí?— Tem cheiro de galinha porque é de galinha com sal e umas gotinhas de xerez. Trate de tomar. Tomei uma colherada e devolvi a tigela. Isabella fez que não.— Tudo. Suspirei e tomei outra colherada. Embora eu não quisesse admitir, estava muito bom.— Como foi seu dia, então?— perguntou Isabella.— Teve seus momentos. E você, como foi?— Você está diante da nova estrela do departamento de vendas de Sempere e Filhos.— Excelente.— Antes das cinco já tinha vendido dois exemplares de O Retrato de Dorian Gray e as obras completas de Lampedusa a um cavalheiro muito distinto, de Madri, que me deu gorjeta. Não faça essa cara, que coloquei a gorjeta na caixa junto com o resto.— E Sempere filho, disse o quê?— Dizer não disse grande coisa. Passou o tempo todo como um ratinho, fingindo que não estava me vendo, mas sem tirar os olhos de mim. Não consigo nem sentar de tanto que ele olhou para o meu traseiro cada vez que subia na escada para pegar um livro. Satisfeito?