O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 245
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Abandonei a Casa Marlasca com a alma arrasada e caminhei sem rumo pelo labirinto
de Ruas solitárias que conduziam até Pedralbes. O céu estava coberto por uma teia de
aranha de nuvens cinzentas que mal permitiam a passagem do sol. Agulhas de luz
perfuravam aquele sudário e varriam a encosta da montanha. Segui aquelas linhas de
claridade com os olhos e pude ver, de longe, que acariciavam o telhado esmaltado da Villa
Helius. As janelas brilhavam na distância. Sem dar ouvidos ao bom senso, caminhei
naquela direção. À medida que me aproximava, o céu foi escurecendo e um vento cortante
começou a levantar espirais de folhas secas à minha passagem. Parei ao chegar ao pé da
Rua Panamá. A Villa Helius erguia-se bem ali em frente. Não me atrevi a atravessar a Rua
e aproximar-me do muro que rodeava o jardim. Fiquei ali, sabe Deus quanto tempo,
incapaz de fugir ou de ir até a porta e bater. Foi então que a vi cruzar atrás de uma das
janelas do segundo andar. Senti um frio intenso nas entranhas. Estava começando a bater
em retirada, quando ela deu meia-volta e parou. Aproximou-se do vidro e pude sentir seus
olhos sobre os meus. Levantou a mão, como se quisesse cumprimentar, mas não chegou
a abrir os dedos. Não tive coragem suficiente para sustentar seu olhar e bati em retirada,
afastando-me pela Rua afora. Minhas mãos tremiam e as enfiei nos bolsos, para que não
percebesse. Antes de dobrar a esquina, virei mais uma vez e comprovei que ela
continuava ali, olhando. Mas quando quis odiá-la, as forças me faltaram.
Cheguei em casa com frio nos ossos, ou pelo menos era o que queria pensar. Ao
cruzar o portão, vi um envelope saindo pela caixa do correio que ficava no vestíbulo.
Pergaminho e lacre. Notícias do patrão. Abri enquanto me arrastava escada acima. Sua
caligrafia afilada marcava encontro para o dia seguinte. Ao chegar ao patamar de entrada,
vi que a porta estava entreaberta e que Isabella, sorridente, me esperava.
— Estava no escritório e vi que estava chegando — disse.
Tentei sorrir, mas acho que não fui muito convincente, pois assim que Isabella me
olhou nos olhos, adotou uma expressão preocupada.
— Está tudo bem?
— Não é nada. Parece que peguei um resfriado.
— Tenho um caldo no fogo que vai funcionar como uma bênção. Venha.
Isabella pegou meu braço e me conduziu até a galeria.
— Não sou nenhum inválido, Isabella.