O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 244
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
acidente, mas nunca acreditei nisso. Jacó tinha desaparecido e não havia sinal do dinheiro.
Roures afirmou que não sabia de nada. Declarou que não tinha contato com Diego há
meses, porque ele tinha enlouquecido e lhe dava medo. Contou que, em suas últimas
aparições nas sessões espíritas, Diego tinha assustado os clientes com histórias de almas
malditas e que não permitiu que voltasse mais. Dizia que havia um grande lago de sangue
sob a cidade. Dizia que seu filho falava com ele em sonhos, que Ismael tinha sido
capturado por uma sombra com pele de serpente que se fazia passar por outro menino e
brincava com ele... Ninguém se surpreendeu quando foi encontrado morto. Irene disse que
Diego tinha abandonado a vida por minha culpa, que aquela esposa fria e calculista, que
permitiu que o filho morresse porque não queria renunciar a uma vida de luxo, tinha-o
empurrado para a morte. Disse também que era a única que o amava de verdade e que
nunca tinha aceitado um centavo sequer. Creio que, pelo menos nisso, dizia a verdade.
Acho que Jacó a usou para seduzir Diego e roubar tudo o que tinha. Em seguida, na hora
da verdade, deixou-a para trás e fugiu sem dividir um centavo com ela. Foi o que a polícia
disse, ou pelo menos alguns deles. Sempre achei que não queriam mexer muito naquele
assunto e que a versão do suicídio foi muito conveniente para eles. Mas não acredito que
Diego tirasse a própria vida. Não acreditei na época e não acredito agora. Creio que foi
assassinado por Irene e Jacó. E não somente por dinheiro. Havia algo mais. Lembro que
um dos policiais encarregados do caso, um homem muito jovem chamado Salvador,
Ricardo Salvador, também pensava assim. Dizia que havia algo que não batia com a
versão oficial dos fatos e que alguém estava encobrindo a verdadeira causa da morte de
Diego. Salvador lutou para esclarecer os fatos até ser afastado do caso e, algum tempo
depois, foi expulso da corporação. Mas mesmo assim continuou a investigar por conta
própria. De vez em quando, vinha me ver. Nós nos tornamos bons amigos... Eu era uma
mulher sozinha, arruinada e desesperada. Valera costumava dizer que devia me casar de
novo. Ele também me culpava pelo que tinha acontecido com meu marido e chegou a
insinuar que havia muitos comerciantes solteiros de olho numa viúva de ar aristocrático e
boa presença para esquentar sua cama nos anos dourados. Com o tempo, até Salvador
parou de me visitar. Não o culpo. Na tentativa de me ajudar, tinha arruinado sua vida. Às
vezes tenho a impressão de que tudo o que consegui fazer pelos outros neste mundo foi
arruinar suas vidas... Não tinha contado essa história a ninguém até hoje, Sr. Martín. Se
quer um conselho, esqueça-se dessa casa, de mim, de meu marido e dessa história. Vá
para bem longe. Essa é uma cidade maldita. Maldita."