O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 243

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
casa, os criados... E acabei perdendo da mesma forma, e a ele também. Mas o que acabou nos separando foi a perda de Ismael. Ismael era nosso filho, Diego era louco por ele. Nunca vi um pai tão ligado a seu filho. Ismael era sua vida, e não eu. Estávamos discutindo no quarto do primeiro andar. Eu tinha começado a recriminá-lo pelo tempo que passava escrevendo e porque seu sócio, Valera, farto de ter que fazer o trabalho dos dois, tinha feito um ultimato e estava pensando inclusive em dissolver a sociedade e estabelecer-se por conta própria. Diego disse que não se importava, que estava disposto a vender sua participação no escritório e dedicar-se à sua vocação. À tarde, sentimos falta de Ismael. Não estava em seu quarto, nem no jardim. Pensei que ao ouvir nossa discussão, tinha se assustado e saído da casa. Não seria a primeira vez que o faria. Meses antes, nós o encontramos num banco da praça de Sarrià, chorando. Estava anoitecendo quando saímos para procurá-lo, mas não havia sinal dele em lugar nenhum. Procuramos nas casas dos vizinhos, hospitais... Quando voltamos, ao amanhecer, depois de passar a noite procurando, encontramos seu corpo no fundo da piscina. Tinha se afogado na tarde anterior e não ouvimos seus gritos de socorro porque estávamos gritando um com o outro. Tinha 7 anos. Diego nunca me perdoou, nem a si mesmo. Em pouco tempo, não éramos mais capazes de suportar a presença um do outro. Cada vez que nos olhávamos ou nos tocávamos, víamos o corpo de nosso filho morto no fundo daquela maldita piscina. Um belo dia, acordei e vi que Diego tinha me abandonado. Deixou o escritório e foi viver num casarão do bairro da Ribera, pelo qual era obcecado há anos. Dizia que estava escrevendo, que tinha recebido uma encomenda muito importante de um editor de Paris, que eu não precisava me preocupar com dinheiro. Eu sabia que estava com Irene, embora ele não admitisse. Era um homem destroçado. Estava convencido de que lhe restava pouco tempo de vida. Acreditava que tinha contraído uma enfermidade, uma espécie de parasita, que o devorava por dentro. Só falava da morte. Não ouvia ninguém. Nem a mim, nem a Valera... Só a Irene e Roures, que envenenavam sua cabeça com histórias de espíritos e extorquiam dinheiro com promessas de colocá-lo em contato com Ismael. Certa ocasião, fui até a casa da torre e supliquei que abrisse para mim. Não me deixou entrar. Disse que estava ocupado, que estava trabalhando em algo que ia permitir que salvasse Ismael. Foi então que percebi que estava começando a perder a razão. Acreditava que, se escrevesse aquele maldito livro para o editor de Paris, nosso filho regressaria da morte. Creio que Irene, Roures e Jacó conseguiram tirar todo o dinheiro que lhe restava, que nos restava... Meses depois, quando já não via mais ninguém e passava todo o tempo trancado naquele lugar horrível, foi encontrado morto. A polícia disse que tinha sido um