O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 242

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 24 — Para ser sincera, não sei muito bem quando meu marido Diego a conheceu. Só lembro que um dia começou a mencioná-la, de passagem, e que logo não havia dia em que não o ouvisse pronunciar seu nome: Irene Sabino. Disse que lhe tinha sido apresentada por um homem chamado Damián Roures, que organizava sessões espíritas num local na Rua Elisabets. Diego era um estudioso das religiões e já havia freqüentado várias delas como observador. Naquela época, Irene Sabino era uma das atrizes mais famosas do Paralelo. Era uma beleza, não posso negar. A parte isso, não creio que fosse capaz de contar além de dez. Diziam que tinha nascido nas barracas da praia do Bogatell, que sua mãe a tinha abandonado no Somorrostro e que tinha crescido entre mendigos e pessoas que procuravam o local para se esconder. Começou a dançar em cabarés e casas noturnas do Raval e do Paralelo aos 14 anos. Dançar é apenas uma forma de falar. Suponho que começou a se prostituir antes de aprender a ler, se é que aprendeu... Por um período, foi a grande estrela do La Criolla, pelo menos era o que diziam. Em seguida, passou para locais de melhor categoria. Acho que foi no Apolo que conheceu um tal de Juan Corbera, que todo mundo chamava de Jacó. Jacó era seu empresário e, provavelmente, seu amante. Foi ele quem inventou o nome Irene Sabino e a lenda de que era a filha secreta de uma grande vedete de Paris e de um príncipe da nobreza européia. Não sei qual é seu verdadeiro nome. Nem sei se algum dia chegou a ter um. Jacó a introduziu nas sessões espíritas, acredito que por sugestão de Roures, e ambos repartiam os lucros da venda de sua suposta virgindade a homens endinheirados e entediados que compareciam àquelas farsas para espantar a monotonia. Sua especialidade eram os casais, diziam. "O que Jacó e seu sócio Roures não suspeitavam era que Irene estava obcecada pelas sessões e realmente acreditava que era possível fazer contato com o mundo dos espíritos naquelas encenações. Estava convencida de que sua mãe lhe enviava mensagens do outro mundo e, mesmo depois de ficar famosa, continuou a freqüentar as sessões para tentar estabelecer contato com ela. Foi lá que conheceu meu marido Diego. E estávamos vivendo um período ruim, como acontece em todos os casamentos. Fazia tempo que Diego desejava abandonar a advocacia e dedicar-se exclusivamente à escrita. Reconheço que não encontrou em mim o apoio de que necessitava. Eu achava que ia jogar sua vida fora, embora provavelmente fosse apenas medo de perder tudo isso, a