O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 247
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Sorri e concordei.
— Obrigado, Isabella.
Olhou bem nos meus olhos, fixamente.
— Diga isso de novo.
— Obrigado, Isabella. De todo o coração.
Ficou vermelha e desviou o olhar. Ficamos algum tempo num plácido silêncio,
usufruindo daquela camaradagem que às vezes não precisava nem de palavras. Tomei
todo o caldo, embora já não tivesse mais espaço algum no estômago, e mostrei a tigela
vazia. Ela aprovou.
— Foi vê-la, não é? Aquela mulher, Cristina — disse Isabella, evitando meus olhos.
— Isabella, a leitora de expressões...
— Diga a verdade.
— Só a vi de longe.
Isabella examinou-me com cautela, como se pensasse se devia ou não me dizer
alguma coisa que estava engasgada em sua consciência.
— Você a deseja? — perguntou.
Olhamo-nos em silêncio.
— Não sei amar ninguém. Você sabe disso. Sou egoísta e tudo o mais. Vamos falar
de outra coisa.
Isabella concordou, o olhar preso no envelope que despontava em meu bolso.
— Notícias do patrão?
— A convocatória do mês. O excelentíssimo Sr. Andreas Corelli tem o prazer de
convidar-me, amanhã às sete da manhã, para um encontro nas portas do cemitério do
Pueblo Nuevo. Não podia escolher melhor lugar.
— E está pensando em ir?
— E o que mais posso fazer?
— Pode pegar um trem hoje à noite e desaparecer para sempre.
— É a segunda pessoa que me propõe isso hoje. Sumir daqui.
— Algum motivo deve haver.
— E quem seria seu guia e incentivador nos desastres da literatura?
— Eu vou com você.
Sorri e segurei sua mão.
— Com você, até o fim do mundo, Isabella.
Isabella retirou a mão de um só golpe e olhou para mim, ofendida.