O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 239
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
hera se estendia sobre o espelho de águas escuras. Cheguei até a borda e vi que estava
cheia de folhas mortas e algas que ondulavam sobre a superfície. Estava contemplando
meu próprio reflexo nas águas da piscina quando percebi que um vulto escuro pairava às
minhas costas.
Virei bruscamente e deparei com um rosto afilado e sombrio examinando-me com
inquietude e receio.
— Quem é o senhor e o que está fazendo aqui?
— Meu nome é David Martín e venho da parte do advogado Valera — improvisei.
Alicia Marlasca apertou os lábios.
— A senhora é a esposa de Marlasca? Dona Alicia?
— O que aconteceu com o rapaz que vem sempre? — perguntou. Compreendi que a
Sra. Marlasca tinha me confundido com um dos estagiários do escritório de Valera e
achava que lhe trazia alguns papéis para assinar ou uma mensagem da parte dos
advogados. Por um instante, considerei a possibilidade de adotar a identidade, mas
alguma coisa no semblante daquela mulher me disse que ela já tinha ouvido mentiras
suficientes em sua vida para não aceitar mais nenhuma.
— Não trabalho para o escritório, Sra. Marlasca. A razão de minha visita é particular.
Gostaria de saber se dispõe de alguns minutos para falarmos sobre uma das antigas
propriedades de seu finado marido, dom Diego.
A viúva empalideceu e afastou os olhos. Apoiava-se numa bengala e vi que na soleira
da galeria havia uma cadeira de rodas na qual, supus, passava mais tempo do que
gostaria de admitir.
— Já não me resta mais nenhuma das propriedades de meu marido, senhor...
— Martín.
— Os bancos ficaram com tudo, Sr. Martín. Tudo menos essa casa que, graças aos
conselhos do Dr. Valera, o pai, ele colocou em meu nome. O resto os carniceiros
levaram...
— Estava me referindo à casa da torre, na Rua Flassanders.
A viúva suspirou. Calculei que devia andar pela casa dos 60, 65 anos. O eco daquilo
que certamente foi uma beleza deslumbrante mal tinha se evaporado.
— Esqueça essa casa. É um lugar amaldiçoado.
— Lamentavelmente, não posso fazer isso. Eu moro lá.
A Sra. Marlasca franziu o cenho.
— Pensei que ninguém queria viver lá. Esteve vazia por muitos anos.