O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 240
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Aluguei-a já faz um tempo. A razão de minha visita é que, no decorrer de algumas
obras de reforma, encontrei uma série de objetos pessoais que pertenciam, acho eu, a seu
marido e, suponho, à senhora também.
— Não há nada meu naquela casa. O que quer que tenha encontrado lá, deve ser
daquela mulher...
— Irene Sabino?
Alicia Marlasca sorriu com amargura.
— O que deseja saber na verdade, Sr. Martín? Pode dizer a verdade. Não veio até
aqui para me devolver velharias pertencentes a meu falecido marido.
Ficamos nos olhando em silêncio e vi que não podia nem queria mentir para aquela
mulher, a preço algum..
— Estou interessado em descobrir o que aconteceu com seu marido, Sra. Marlasca.
— Por quê?
— Porque temo que a mesma coisa esteja acontecendo comigo.
A Casa Marlasca tinha aquela atmosfera de panteão abandonado das grandes casas
que vivem de ausência e de carência. Longe de seus dias de fortuna e glória, de tempos
em que um exército de criados a mantinha brilhante e cheia de esplendor, a casa agora
era uma ruína. A pintura das paredes, descascada; as tábuas do chão, soltas; os móveis,
carcomidos pela umidade e pelo frio; os tetos, caídos; e os grandes tapetes, puídos e
desbotados. Ajudei a viúva a sentar na cadeira de rodas e seguindo suas indicações, levei-
a até um salão de leitura despojado de seus livros e quadros.
— Tive que vender a maioria das coisas para sobreviver — explicou a viúva. — Não
fosse o Dr. Valera mandar todo mês uma pequena pensão a cargo do escritório, não
saberia para onde ir.
— Vive sozinha aqui?
A viúva fez que sim.
— Esta é minha casa. O único lugar onde fui feliz, embora tantos anos tenham se
passado. Sempre vivi aqui e morrerei aqui. Desculpe por não ter lhe oferecido nada. Faz
tempo que não recebo visitas e já nem sei como tratar um convidado. Gostaria de um café,
um chá?
— Estou bem, obrigado.
A Sra. Marlasca sorriu e indicou a poltrona em que estava sentado.