O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 238

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
meus passos e voltei atrás procurando o número 13. Começava a suspeitar que a secretária do Dr. Valera tinha se mostrado mais esperta do que eu esperava e tinha me dado um endereço falso, quando reparei a entrada de uma passagem, que se abria na calçada e se prolongava por quase meia centena de metros até uma grade escura com uma crista de lanças em cima.
Entrei pela estreita trilha de pedras e me aproximei da grade. Um jardim frondoso e descuidado tinha avançado para o lado de cá e os ramos de um eucalipto atravessavam as lanças da grade como braços suplicando entre as barras de uma cela. Afastei as folhas que cobriam parte do muro e encontrei as letras e cifras lavradas na pedra.
Casa Marlasca 13
Segui a cerca gradeada que margeava o jardim, tentando vislumbrar o interior. Cerca de 20 metros depois, encontrei uma porta metálica encaixada no muro de pedra. Um abatedor repousava sobre a lâmina de ferro, soldado por lágrimas de ferrugem. A porta estava entreaberta. Empurrei com o ombro e consegui que cedesse o suficiente para passar sem que as ásperas pedras do muro rasgassem minhas roupas. Um cheiro intenso de terra molhada impregnava o ar.
Um caminho de placas de mármore abria-se entre as árvores e levava até uma clareira recoberta de pedras brancas. De um lado via-se uma garagem com o portão aberto e os restos daquilo que algum dia tinha sido um Mercedes-Benz e que agora parecia um carro funerário abandonado à própria sorte. A casa era uma estrutura de estilo modernista que se erguia em três andares de linhas curvas, arrematada por uma crista de águas-furtadas em torreões e arcos. Janelas estreitas e afiladas como punhais se abriam na fachada salpicada de relevos e gárgulas. Os vidros refletiam a passagem silenciosa das nuvens. Tive a impressão de ver um rosto perfilado atrás de uma das janelas do primeiro andar.
Sem saber muito bem por que, ergui a mão e acenei. Não queria que me tomassem por um ladrão. A figura permaneceu ali me observando, imóvel como uma aranha. Baixei os olhos por um instante e, quando voltei a olhar, tinha desaparecido.— Bom-dia?— chamei. Esperei alguns segundos e, como não obtive resposta, aproximei-me lentamente da casa. Uma piscina oval ladeava a fachada leste. Do outro lado erguia-se uma galeria envidraçada. Cadeiras de lona desfiada rodeavam a piscina. Um trampolim coberto de