O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 237

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 23 Quando saí à Rua, fui surpreendido por uma brisa fria e cortante que varria as Ruas com impaciência e fiquei sabendo que o outono tinha entrado em Barcelona na ponta dos pés. Na praça Palacio, peguei um bonde que esperava vazio como uma grande ratoeira de ferro batido. Sentei num lugar perto da janela e paguei a passagem ao trocador. — Vai até Sarrià? — perguntei. — Até a praça. Apoiei a cabeça contra a janela e em alguns minutos o bonde arrancou com um sacolejo. Fechei os olhos e me abandonei a um desses cochilos que se pode usufruir a bordo de algum engenho mecânico, o sonho do homem moderno. Sonhei que viajava num trem feito de ossos negros, com vagões em forma de ataúde, que atravessava Barcelona deserta e pontilhada de roupas abandonadas, como se os corpos que as ocupavam tivessem evaporado. Uma turba de chapéus e vestidos, ternos e sapatos abandonados cobria as Ruas envolvidas no silêncio. A locomotiva desprendia um rastro de fumaça escarlate que espalhava sobre o céu como tinta derramada. O patrão, sorridente, viajava a meu lado. Estava vestido de branco e usava luvas. Uma coisa escura e gelatinosa gotejava de seus dedos. — O que aconteceu com as pessoas? — Tenha fé, Martín, Tenha fé. Quando acordei, o bonde deslizava lentamente na entrada da praça de Sarrià. Desci antes que tivesse parado completamente e entrei pela ladeira da Rua Mayor de Sarrià. Quinze minutos mais tarde chegava a meu destino. A estrada de Vallvidrera nascia num arvoredo sombrio que se estendia às costas do castelo de tijolos vermelhos do Colegio San Ignacio. A Rua subia até a montanha, margeada por casarões solitários e coberta por um manto de folhas. Nuvens baixas deslizavam pela ladeira e se desfaziam em sopros de névoa. Fui pela calçada dos números ímpares e percorri muros e grades, tentando encontrar a numeração. Mais adiante, entreviam-se fachadas de pedra escurecida e fontes secas encalhadas entre veredas invadidas pelo matagal. Percorri um trecho de calçada à sombra de uma longa fileira de ciprestes e descobri que a numeração pulava do 11 para o 15. Confuso, refiz