O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 233
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Vai brincar de detetive de novo? — perguntou.
— Um pouco.
— Não precisa de guarda-costas? Ou de uma dra. Watson? Alguém com bom senso?
— Não deve aprender a encontrar desculpas para não escrever antes de aprender a
escrever. Isso é um privilégio de profissionais que terá de conquistar.
— Penso que, se sou mesmo sua assistente, tem que ser para tudo.
Sorri mansamente.
— Já que falou, é verdade que tenho uma coisa para pedir a você. Não, não se
assuste. Tem a ver com Sempere. Soube que anda meio mal de dinheiro e que a livraria
está perigando.
— Não pode ser.
— Lamentavelmente, é sim. Mas não vai acontecer nada, porque nós dois não vamos
permitir que a coisa vá mais além.
— Olhe que o Sr. Sempere é muito orgulhoso e não vai deixar que... Você já tentou,
não foi?
Fiz que sim.
— E pensei, por isso mesmo, que teremos que ser mais espertos e recorrer à
heterodoxia e às artes da trapaça.
— Sua especialidade.
Ignorei o tom de reprovação e continuei minha exposição.
— É o seguinte: como quem não quer nada, você aparece na livraria e diz a Sempere
que sou um monstro, que não agüenta mais...
— Até aí é cem por cento verossímil.
— Não me interrompa. Vai dizer isso tudo e também que o que lhe pago para ser
minha assistente é uma miséria.
— Mas você não paga nem um tostão...
Suspirei, armando-me de paciência.
— Quando ele disser que lamenta muito, o que ele vai dizer, você faz uma cara de
mocinha em apuros e confessa, se possível com uma lágrima disfarçada, que seu pai a
deserdou e quer trancá-la num convento. Em seguida, diz que pensou que poderia
trabalhar na livraria, talvez apenas algumas horas, como experiência, em troca de dois ou
três por cento de comissão pelo que vender, para construir um futuro longe do convento,
como uma mulher livre e dedicada à difusão das letras.
Isabella torceu a cara.