PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
mais produtivos. As horas de confinamento no escritório cristalizavam-se rapidamente em páginas e páginas nas quais, não sem uma certa inquietação, comecei a reconhecer que o trabalho tinha alcançado aquele ponto de consistência em que deixa de ser uma idéia e se transforma em realidade.
O texto fluía, brilhante e elétrico. Assumia os contornos de uma lenda, uma saga mitológica de prodígios e misérias, cheia de personagens e cenários que giravam em torno de uma profecia de esperança para a raça. A narração preparava o caminho para a chegada de um guerreiro salvador, que libertaria a nação de toda dor e de toda vergonha para devolver-lhe a glória e o orgulho arrebatados por inimigos astuciosos, que desde sempre e para sempre conspiraram e conspirarão contra o povo, ou coisa semelhante. O mecanismo era impecável e funcionava da mesma forma para qualquer credo, raça ou tribo. Bandeiras, deuses e proclamações eram curingas num baralho que distribuía sempre as mesmas cartas. Dada a natureza do trabalho, tinha optado por empregar um dos artifícios mais complexos e difíceis de executar em qualquer texto literário: a aparente ausência de qualquer artifício. A linguagem soava clara e simples: a voz honesta e límpida de uma consciência que não narra, simplesmente revela. Às vezes, parava para ler o que tinha escrito até o momento e era invadido pela vaidade cega de ver que o mecanismo que estava construindo funcionava com precisão impecável. Percebi que, pela primeira vez em muito tempo, passava horas e horas sem pensar em Cristina e Pedro Vidal. As coisas, pensei comigo mesmo, estão melhorando. Talvez por isso, porque parecia que, finalmente, ia sair do atoleiro, fiz o que sempre tinha feito, todas as vezes em que minha vida parecia ter tomado um bom caminho: botei tudo a perder.
Certa manhã, depois do café, vesti um dos meus ternos de cidadão respeitável. Fui até a galeria para me despedir de Isabella, que encontrei debruçada sobre a escrivaninha, relendo as páginas do dia anterior.— Não vai escrever hoje?— perguntou sem levantar os olhos.— Pausa para balanço. Percebi que o jogo de penas e o tinteiro com as musas estavam arrumados junto de seu caderno.— Não disse que era coisa de menininha?— disse.— E acho mesmo, mas sou uma moça de 17 anos e tenho todo o direito do mundo de gostar de cafonices de menininha. É como você com seus charutos. O cheiro de colônia chegou até ela, que me deu um olhar intrigado. Ao ver que tinha me vestido para sair, franziu as sobrancelhas.