O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 229

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Porque você é a única amiga que me resta. A dureza de sua expressão esvaneceu-se e, antes de reconhecer um sentimento de tristeza em seus olhos, afastei o olhar.— E o que me diz do Sr. Sempere e daquele outro, o pedante, Barceló?— Você é a única que me resta que se atreve a me dizer a verdade.— E seu amigo, o patrão, não lhe diz a verdade?— De árvore caída é fácil tirar lenha. O patrão não é meu amigo. E não acredito que alguma vez na vida tenha dito a verdade. Isabella examinou-me detidamente.— Está vendo? Eu sabia que não confiava nele. Vi em sua cara desde o primeiro dia. Tentei recuperar um pouco de dignidade, mas só o que encontrei foi sarcasmo.— E quando foi que acrescentou a leitura das caras à sua lista de talentos?— Para ler a sua não é preciso talento algum— rebateu Isabella.— É como a história do Pequeno Polegar.— E o que você leu em meu rosto, minha cara pitonisa?— Que está com medo. Tentei rir sem vontade.— Não tenha vergonha de ter medo. Ter medo é sinal de bom senso. Os únicos que não têm medo de nada são os idiotas completos. Li isso num livro.— O manual do covarde?— Não precisa admitir se isso coloca seu sentimento de masculinidade em risco. Sei que para vocês, homens, o tamanho da teimosia corresponde ao tamanho daquelas partes.— Também leu isso em algum livro?— Não, essa é de minha própria produção. Deixei cair os braços, rendido diante da evidência.— Está certo. Sim, admito que sinto uma vaga inquietação.— Quem é vago é você. Está é morto de medo. Desabafe!— Devagar com o andor, que o santo é de barro. Digamos que tenho certas dúvidas a respeito de minha relação com meu editor, o que, tendo em vista a minha experiência anterior, é compreensível. Pelo que sei, Corelli é um perfeito cavalheiro, e nossa relação profissional será produtiva e positiva para ambos.— Por isso tem dor de barriga cada vez que ouve alguém dizer o nome dele? Suspirei, sem fôlego para continuar a discussão.