O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 228

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Olhei-a abatido, como se acabasse de levar uma surra e não soubesse de onde tinham vindo as pancadas. Procurei palavras para responder e só consegui gaguejar. — É verdade que não gostou da caneta com o jogo de penas? — consegui articular por fim. Isabella revirou os olhos, exausta. — Não faça essa cara de cachorro que apanhou, porque sou idiota, mas nem tanto. Fiquei em silêncio, apoiado na soleira da porta. Isabella me observava entre a hesitação e a compaixão. — Não queria dizer aquilo de sua amiga, aquela das fotos. Desculpe — murmurou. — Não precisa se desculpar. É verdade. Abaixei os olhos e saí do quarto. Refugiei-me no escritório para contemplar a cidade escura e enterrada na neblina. De repente, ouvi passos na escada, hesitantes. — Está aí em cima? — perguntou. — Sim. Isabella entrou na sala. Tinha mudado de roupa e lavado do rosto os sinais de choro. Sorriu e eu correspondi. — Por que você é assim? — perguntou. Dei de ombros. Isabella se aproximou e sentou no parapeito, a meu lado. Usufruímos do espetáculo de silêncios e sombras sobre os telhados da cidade sem necessidade de dizer nada. De repente, Isabella sorriu e olhou para mim. — E se acendêssemos um desses charutos que meu pai lhe manda de presente e fumássemos juntos? — Nem pensar. Isabella mergulhou num de seus longos silêncios. Às vezes olhava para mim brevemente e sorria. Eu a observava de lado e percebia que, só de olhar para ela, ficava menos difícil acreditar que talvez restasse algo de bom e decente nesta porcaria de mundo e, com sorte, em mim mesmo. — Vai ficar? — perguntei. — Só se me der uma boa razão. Uma razão sincera, ou seja, em seu caso, egoísta. E é melhor que não seja nenhum conto da carochinha ou vou embora agora mesmo. Entrincheirou-se atrás de um olhar defensivo, esperando mais alguma de minhas lisonjas e, por um instante, transformou-se na única pessoa no mundo para quem não queria e não podia mentir. Baixei os olhos e, por uma vez, disse a verdade, mesmo que fosse apenas para que pudesse ouvi-la em voz alta.