O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 227
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
novo. Nada. Abri a porta e encontrei Isabella recolhendo a meia dúzia de coisas que tinha
trazido consigo e enfiando tudo numa bolsa.
— O que está fazendo? — perguntei.
— Vou embora, é isso que estou fazendo. Vou embora e vou deixar você em paz. Ou
em guerra, pois com você nunca se sabe.
— Posso perguntar para onde vai?
— E o que isso lhe importa? É uma pergunta retórica ou irônica? Para você, é claro,
dá tudo no mesmo, mas, como sou uma idiota, não sei distinguir.
— Isabella, espere um momento, eu...
— Não se preocupe com o vestido, que vou tirá-lo agora mesmo. E pode devolver as
penas e a caneta, pois não gostei, nem usei. É uma cafonice de menininha de jardim-de-
infância.
Cheguei junto dela e pus a mão em seu ombro. Afastou-se de um salto, como se
tivesse sido picada por uma serpente.
— Não me toque.
Retirei-me para a soleira da porta, em silêncio. As mãos e os lábios de Isabella
tremiam.
— Isabella, me perdoe. Por favor. Não queria ofendê-la.
Olhou para mim com lágrimas nos olhos e um sorriso amargo.
— Mas não fez outra coisa desde que estou aqui. Não fez outra coisa a não ser me
insultar e me tratar como se fosse uma pobre idiota que não entende nada de nada.
— Desculpe — repeti. — Largue essas coisas. Não vá embora.
— E por que não?
— Porque estou pedindo, por favor.
— Se precisasse de pena e caridade, teria ido procurar em outro lugar.
— Não é pena, nem caridade, a menos que seja o que sente por mim. Estou pedindo
para você ficar porque o idiota sou eu, e não quero ficar sozinho. Não posso ficar sozinho.
— Que lindo! Sempre pensando nos outros. Pois compre um cachorro.
Deixou a bolsa cair na cama e encarou-me, secando as lágrimas e botando para fora a
raiva que estava acumulada dentro dela. Engoli em seco.
— Pois já que estamos brincando de jogo da verdade, deixe que lhe diga uma coisa:
estará sempre só. Estará sozinho porque não sabe amar, nem compartilhar. Você é como
essa casa, que me deixa de cabelos em pé. Não me estranha que sua dama de branco o
tenha largado aqui sozinho e que todos o deixem. Não ama e não se deixa amar.