O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 226

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Ao voltar para a casa da torre, tinha aprendido a olhar com outros olhos aquele que tinha sido meu lar e minha prisão durante tantos anos. Entrei pelo portão sentindo que atravessava a goela de um ser de pedra e sombras. Subi a escadaria como se penetrasse em suas entranhas e abri a porta do andar principal para me deparar com o longo corredor escuro que se perdia na penumbra e que, pela primeira vez, parecia ser a ante-sala de uma mente medrosa e envenenada. No fundo, recortada contra o brilho escarlate do crepúsculo que se filtrava da galeria, distingui a figura de Isabella avançando em minha direção. Fechei a porta e acendi a luz do saguão.
Isabella tinha se vestido como uma moça chique, com o cabelo preso e alguns traços de maquiagem que a transformavam numa mulher dez anos mais velha.— Vejo que está muito bonita e elegante— disse friamente.— Quase uma moça de sua idade, não é verdade? Gostou do vestido?— Onde o encontrou?— Estava num dos baús do quarto do fundo. Creio que era de Irene Sabino. O que acha? Não cai em mim como uma luva?— Mandei que avisasse às freiras para virem pegar tudo.— Foi o que fiz. Essa manhã fui perguntar na paróquia e disseram que elas não podiam pegar nada e que, se quiséssemos, teríamos que levar nós mesmos. Olhei sem dizer nada.— É verdade— disse ela.— Tire isso e coloque onde encontrou. E lave o rosto. Parece...— Uma qualquer?— terminou Isabella. Neguei suspirando.— Não. Você nunca vai parecer uma qualquer, Isabella.— Claro. É por isso que gosta tão pouco de mim— murmurou dando meia-volta e tomando a direção de seu quarto.— Isabella— chamei. Ignorou-me e entrou no quarto.— Isabella— repeti, levantando a voz. Ela me deu uma olhada hostil e bateu a porta com força. Ouvi que começava a remexer nas coisas dentro do quarto e fui até lá. Bati na porta. Não houve resposta. Bati de