O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 230
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— O que quer que eu lhe diga, Isabella?
— Que não vai mais trabalhar para ele.
— Não posso fazer isso.
— E por que não? Não pode devolver o dinheiro e mandá-lo passear?
— Não é assim tão simples.
— Por que não? Está metido em alguma enrascada?
— Acho que sim.
— De que tipo?
— É o que estou tentando averiguar. De qualquer forma, sou o único responsável e,
portanto, sou eu quem tem que resolver a questão. Não deve se preocupar com isso.
Isabella olhou para mim, resignada por enquanto, mas não convencida.
— Você é um completo desastre como pessoa, sabia?
— Estou começando a perceber.
— Se quiser que eu fique, as regras desta casa vão ter de mudar.
— Sou todo ouvidos.
— Acabou-se o autoritarismo esclarecido. A partir de hoje, essa casa será uma
democracia.
— Liberdade, igualdade, fraternidade.
— Atenção com essa história de fraternidade. De qualquer maneira, chega de "eu faço,
eu aconteço" e de surtos de mister Rochester.
— Como quiser, miss Eyre.
— E não se alimente de ilusões, porque não vou me casar com você nem que acabe
ficando cego.
Estendi a mão para selar nosso pacto. Isabella a apertou, hesitou, e logo me abraçou.
Deixei que seus braços me envolvessem e apoiei o rosto em seus cabelos. Seu contato
era de paz e boas-vindas, a luz de vida de uma moça de 17 anos que por um instante
acreditei que se parecia com o abraço que minha mãe nunca teve tempo de me dar.
— Amigos? — murmurei.
— Até que a morte nos separe.