O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 224

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Sim... um manuscrito. Provavelmente não tem importância. — Provavelmente. E sobre o que versava a obra? — Teologia, eu diria. Valera fez que sim. — Não o surpreende? — perguntei. — Não. Muito pelo contrário. Dom Diego era uma autoridade em história das religiões. Um homem de grande sabedoria. Nesta casa ainda é lembrado com muito carinho. Mas diga então, que aspectos da aquisição desejava conhecer? — Creio que já me ajudou muito, Sr. Valera. Não gostaria de lhe roubar mais tempo. O advogado concordou, aliviado. — É a casa, não é? — perguntou. — É um lugar inusitado, sim — concordei. — Lembro de ter estado lá quando bem jovem, um pouco antes de dom Diego a comprar. — Sabe por que ele a comprou? — Disse que sempre tinha sido fascinado por ela, desde muito jovem, e que sempre pensou que gostaria de morar lá. Dom Diego tinha dessas coisas. Às vezes, era como um menino capaz de dar tudo o que tinha em troca de uma simples ilusão. Não disse nada. — O senhor está bem? — Perfeitamente. Sabe de alguma coisa sobre o proprietário de quem o Sr. Marlasca comprou a casa? Um tal de Bernabé Massot? — Um retornado das Américas. Nunca passou mais que uma hora nela. Comprou quando voltou de Cuba, mas a deixou vazia durante anos. E nunca explicou seus motivos. Vivia num casarão que mandou construir em Arenys de Mar. Vendeu-a por dois tostões. Não queria nada com ela. — E antes dele? — Creio que havia um sacerdote. Um jesuíta. Mas não tenho certeza. Quem tratava dos assuntos de dom Diego era meu pai e, com sua morte, destruiu todos os arquivos. — E por que faria algo assim? — Por tudo que lhe contei. Para evitar rumores e preservar a memória de seu amigo, acho. Na verdade, ele nunca me disse. Meu pai não era um homem muito inclinado a dar explicações de seus atos. Tinha lá suas razões. Boas razões, sem dúvida alguma. Dom