O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 223

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Que tipo de acidente?— O Sr. Marlasca morreu afogado. Uma tragédia. Valera tinha abaixado os olhos e falava num suspiro.— E o escândalo?— Digamos que algumas línguas viperinas andaram insinuando que o Sr. Marlasca tinha se suicidado depois de sofrer um desengano amoroso com Irene Sabino.— E foi isso mesmo? Valera tirou os óculos e esfregou os olhos.— A bem da verdade, não sei. Nem sei e nem importa. O passado é passado.— E o que foi feito de Irene Sabino? Valera voltou a colocar os óculos.— Pensei que seu interesse se limitava ao Sr. Marlasca e a certos aspectos da compra e venda da casa.— É uma simples curiosidade. Entre os objetos pessoais do Sr. Marlasca encontrei várias fotografias de Irene Sabino, assim como cartas dela para o Sr. Marlasca.— Onde pretende chegar com tudo isso?— atacou Valera.— É dinheiro que quer?— Não.— Ainda bem, pois ninguém vai lhe dar. Ninguém mais se importa com esse assunto.
Entendeu?— Perfeitamente, Sr. Valera. Não queria incomodá-lo nem fazer insinuações inconvenientes. Lamento tê-lo ofendido com minhas perguntas. O advogado sorriu e deixou escapar um suspiro gentil, como se a conversa já tivesse terminado.— Não tem importância. Quem pede desculpas sou eu. Aproveitando a veia conciliadora do advogado, utilizei minha expressão mais doce.— Talvez dona Alicia Marlasca, a viúva... Valera encolheu-se na poltrona, visivelmente incomodado.— Sr. Martín, não quero que me interprete mal, mas parte do meu dever como advogado da família é preservar sua intimidade. Por motivos óbvios. Muito tempo se passou, mas não gostaria que velhas feridas que não levam a parte alguma fossem reabertas.— Entendo. O advogado me observava, tenso.— O senhor disse que encontrou um livro?— perguntou.