O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Página 220

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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O escritório de advocacia de Valera ocupava a cobertura de um extravagante edifício modernista encaixado no número 442 da avenida Diagonal, a um passo da esquina com o Passeio de Gracia. O edifício, na falta de melhores palavras, parecia o cruzamento de um gigantesco carrilhão com um navio pirata, cheio de janelas grandiosas e com um telhado de mansardas verdes. Em qualquer outro lugar do planeta, aquela estrutura barroca e bizantina seria considerada uma das sete maravilhas do mundo ou um engenho diabólico, obra de algum artista louco possuído por espíritos do além. No Ensanche de Barcelona, onde peças similares brotavam por todo lado como trevos depois da chuva, mal provocava um arquear de sobrancelhas.
Penetrei no vestíbulo e encontrei um elevador que me fez pensar que tinha sido construído de passagem por uma grande aranha que tecia catedrais em vez de teias. O porteiro abriu a porta e encarcerou-me naquela estranha cápsula, que logo começou a subir pelo vão central da escada. Uma secretária de cara fechada abriu a porta de carvalho lavrado e fez sinal para que entrasse. Dei meu nome e avisei que não tinha hora marcada, mas que meu assunto se relacionava com o processo de compra e venda de um imóvel no bairro da Ribera. Alguma coisa mudou em seu olhar impenetrável.— A casa da torre?— perguntou a secretária. Fiz que sim. Ela me levou até um escritório vazio e mandou que entrasse. Intuí que aquela não era a sala de espera oficial.— Espere um momento, Sr. Martín. Avisarei o Dr. Valera que o senhor está esperando por ele.
Passei os 45 minutos seguintes naquele escritório, rodeado de estantes repletas de volumes do tamanho de lápides funerárias, tendo nas lombadas inscrições do tipo " 1888- 1889, B. C. A. Seção primeira. Título segundo ", um convite leitura compulsiva. O escritório dispunha de uma ampla janela suspensa sobre a Diagonal, de onde se podia contemplar toda a cidade. Os móveis cheiravam a madeira nobre envelhecida e macerada em dinheiro. Tapetes e poltronas de couro sugeriam uma atmosfera de clube inglês. Levantei um dos abajures que dominavam a sala e calculei que devia pesar pelo menos uns 30 quilos. Um grande óleo, que repousava sobre uma lareira que não mostrava sinais de uso, exibia uma rotunda e expansiva figura que não poderia ser ninguém mais do que dom Soponcio Valera y Menacho. O pomposo advogado exibia suíças e bigodes que mais