O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 219

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — Ainda é muito jovem. Deixe que se divirta mais algum tempo. — Essa é boa. Quem me dera que se divertisse. Na idade dele, se tivesse esse monte de pretendentes, teria cometido mais pecados do que um cardeal. — Deus dá a noz a quem não tem dentes. — É disso que ele precisa: dentes. E vontade de morder. Tive a impressão de que alguma idéia andava rondando a cabeça do livreiro. Olhava para mim e sorria. — Talvez você possa ajudá-lo... — Eu? — Você é um homem do mundo, Martín. E não faça essa cara. Tenho certeza de que, se quiser, pode encontrar uma boa moça para meu filho. Cara bonita ele já tem. O resto você ensina... Fiquei sem palavras. — Não queria me ajudar? — perguntou o livreiro. — Aí está. — Estava falando de dinheiro. — E eu, do meu filho, do futuro dessa casa. De minha vida inteira. Suspirei. Sempere segurou minha mão e apertou com o pouco de força que lhe restava. — Prometa que não me deixará partir desse mundo sem ver meu filho estabelecido com uma boa mulher, dessas pelas quais vale a pena morrer. E que me dê um neto. — Se descobrir como fazer isso, abro um negócio... Sempere sorriu. — Às vezes penso que você deveria ser meu filho, Martín. Olhei para ele, mais frágil e velho que nunca, apenas uma sombra do homem forte e imponente que eu lembrava dos meus anos de juventude entre aquelas paredes, e senti que o mundo desmoronava a meus pés. Fui até ele e, antes que me desse conta, estava fazendo o que nunca tinha feito naqueles anos todos. Dei um beijo em sua testa pontilhada de manchas, encimada por uns poucos fios grisalhos. — Promete? — Prometo — disse eu, a caminho da saída.