O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 218

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 19 Sempere mal tocou a comida. Sorria cansado e fingia interesse por meus comentários, mas pude perceber que às vezes tinha dificuldade de respirar. — E então, Martín, está trabalhando em quê? — Difícil de explicar. Um livro sob encomenda. — Romance? — Não exatamente. Não sei muito bem como definir. — O importante é que esteja trabalhando. Sempre disse que o ócio enfraquece o espírito. É preciso manter o cérebro ocupado. E se não tiver cérebro, pelo menos as mãos. — Mas tem gente que trabalha além da conta, Sr. Sempere. Não acha que deveria tirar uma folga? Há quantos anos está aqui na linha de frente, sem parar? Sempere olhou ao redor. — Esse lugar é minha vida, Martín. Para onde iria? Tomar sol num banco de parque, dando de comer aos pombos e reclamando do reumatismo? Morreria em dez minutos. Meu lugar é aqui. E meu filho ainda não está preparado para tomar as rédeas, embora pense que sim. — Mas é muito trabalhador. E muito boa pessoa. — Boa pessoa demais, cá entre nós. Às vezes, olho para ele e me pergunto o que vai ser dele no dia em que eu faltar. Como vai se virar... — Todos os pais sentem isso, Sr. Sempere. — O seu também? Perdoe, não queria... — Não se preocupe. Meu pai já tinha preocupação suficiente com ele mesmo para carregar as que eu pudesse causar. Tenho certeza de que seu filho tem mais recursos do que imagina. Sempere olhava para mim, hesitante. — Sabe o que eu acho que lhe falta? — Malícia? — Uma mulher. — Não devem faltar candidatas entre todas as moçoilas que se apinham nas vitrines para admirá-lo. — Estou falando de uma mulher de verdade, daquelas que fazem você ser aquilo que tem que ser.