O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 217

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
Tinha um par de horas para matar antes de fazer uma visita ao advogado Valera, de modo que peguei o bonde que descia até a Via Layetana e desci na altura da Rua Condal. A livraria de Sempere e Filhos ficava a um passo dali e sabia, por experiência própria, que o velho livreiro, na contramão da prática imutável do comércio local, não fechava ao meiodia. Encontrei-o como sempre, ao lado do balcão, arrumando livros e atendendo a um bem nutrido grupo de clientes que passeava entre as mesas e estantes à caça de algum tesouro. Quando me viu, sorriu e veio me cumprimentar. Estava mais magro e pálido do que da última vez em que o tinha visto. Deve ter lido a preocupação em meu olhar, pois deu de ombros e fez um gesto de quem não dá importância ao assunto.
— Uns com tanto, outros com tão pouco. Você com essa estampa, e eu feito um pano de chão, como pode ver— disse.— Mas está bem?— Eu, fresco como uma rosa! É a maldita angina de peito. Nada de grave. Mas o que o traz aqui, amigo Martín?— Pensei em convidá-lo para almoçar.— Agradeço muito, mas não posso abandonar o leme. Meu filho foi a Sarrià avaliar uma coleção, e as contas não estão tão boas assim para poder fechar com clientes na porta.— Não me diga que está com problemas de dinheiro.— Isso é uma livraria, Martín, não um cartório. Aqui, tudo é a conta justa, às vezes nem isso.— Se precisar de ajuda... Sempere me interrompeu levantando a mão.— Se quiser me ajudar, compre um livro.— A conta que tenho com o senhor não se paga com dinheiro, sabe disso, não?— Mais uma razão para que isso nem lhe passe pela cabeça. Não se preocupe conosco, Martín, pois daqui só sairemos dentro de um caixão. Mas se quiser, pode partilhar comigo um suculento almoço de pão com passas e queijo fresco de Burgos. Com isso e o Conde de Monte Cristo dá para sobreviver cem anos.