O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 221

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA pareciam uma juba de leão velho, e seus olhos, de fogo e aço, dominavam cada canto da sala do além-túmulo, com uma gravidade de sentença de morte. — Ele não fala, mas se você ficar algum tempo olhando para o quadro, dá a impressão de que vai fazê-lo a qualquer momento — disse uma voz às minhas costas. Não o ouvi entrar. Sebastián Valera era um homem de andar discreto que parecia ter passado a maior parte de sua vida tentando se arrastar para fora da sombra do pai e que, agora, aos cinqüenta e tantos anos, tinha se cansado de tentar. Tinha um olhar inteligente e penetrante, respaldado por aquela postura refinada que só as princesas e os advogados realmente caros costumam ostentar. — Lamento a espera, mas não contava com sua visita — disse, indicando que me sentasse. — Ao contrário: agradeço a amabilidade de me receber. Valera sorria como só quem sabe e determina o preço de cada minuto pode fazê-lo. — Minha secretária disse que seu nome é David Martín. David Martín, o escritor? Minha cara de surpresa deve ter me delatado. — Venho de uma família de grandes leitores — explicou. — Em que posso ajudá-lo? — Gostaria de consultá-lo a respeito da compra e venda de uma propriedade situada na... — A casa da torre? — cortou o advogado, cortês. — Sim. — O senhor a conhece? — Vivo lá. Valera olhou-me longamente sem abandonar o sorriso. Ajeitou-se na cadeira e adotou uma postura tensa e fechada. — É o atual proprietário? — Na verdade, moro no imóvel em regime de aluguel. — E o que gostaria de saber, Sr. Martín? — Queria conhecer, se for possível, os detalhes da aquisição do imóvel por parte do Banco Hispano Colonial e reunir alguma informação sobre o antigo proprietário. — Dom Diego Marlasca — murmurou o advogado. — Posso saber a natureza de seu interesse? — Circunstancial. Recentemente, no curso de uma reforma na propriedade, encontrei uma série de objetos que penso que lhe pertenciam. O advogado franziu o cenho.