O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 209
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Acho que se chamava Irene Sabino, não tenho certeza. Era uma atriz bastante
famosa nos teatros do Paralelo. Mas já faz muito tempo. Foi antes de você nascer.
— Pois veja essa.
Isabella estendeu uma foto em que Irene Sabino aparecia apoiada numa janela que
não foi difícil identificar como a de meu escritório no alto da torre.
— Interessante, não é verdade? — perguntou Isabella. — Acha que vivia aqui?
Dei de ombros.
— Vai ver era amante desse tal de Diego Marlasca...
— Em todo caso, não acho que seja da nossa conta.
— Como você é chato às vezes.
Isabella guardou as fotografias na caixa, mas ao fazê-lo, uma delas escorregou de sua
mão. A imagem ficou a meus pés. Peguei e examinei. Era ela, Irene Sabino, com um
deslumbrante vestido negro, posando com um grupo de pessoas em trajes de gala num
salão em que pensei reconhecer o Círculo Eqüestre. Era uma simples foto de festa que
não me chamaria atenção se não fosse porque, no segundo plano, quase apagado,
aparecia um cavalheiro de cabelos brancos no alto de uma escadaria. Andreas Corelli.
— Você está pálido — disse Isabella.
Pegou a fotografia de minhas mãos e examinou sem dizer nada. Levantei e fiz um
sinal a Isabella para que saísse do quarto.
— Não quero que volte a entrar aqui — disse, sem forças.
— Por quê?
Esperei que Isabella saísse e tranquei a porta. Isabella olhava para mim como se eu
não estivesse muito lúcido.
— Amanhã você vai chamar as irmãs de caridade e dizer que passem aqui para pegar
tudo isso. Quero que levem tudo. O que não servir, que joguem fora.
— Mas...
— Não discuta.
Não quis enfrentar seu olhar e tomei a direção da escada que subia para o escritório.
Isabella ficou me olhando do corredor.
— Quem é esse homem, Sr. Martín?
— Ninguém — murmurei. — Ninguém.