PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
— Que bobagem! Isso aqui vai exigir uma quantidade enorme de trabalho. Venha, olhe quanta coisa achei. Hesitei.— Entre, vamos. Entrei no quarto e ajoelhei-me a seu lado. Isabella tinha separado os objetos e as caixas por categorias: livros, brinquedos, fotografias, roupas, sapatos, óculos. Olhei todos aqueles objetos com apreensão. Isabella parecia encantada, como se tivesse encontrado as minas do rei Salomão.— Tudo isso é seu? Neguei.— Do antigo proprietário.— Você o conhecia?— Não. Tudo isso estava aqui há anos quando me mudei. Isabella segurava um pacote de correspondência, que me mostrou como se fosse a prova de um sumário de culpa.— Pois acho que consegui descobrir como ele se chamava.— Não diga. Isabella sorriu, claramente encantada com seus avanços de detetive.— Marlasca— sentenciou.— Chamava-se Diego Marlasca. Não acha curioso?— O quê?— Que as iniciais sejam as mesmas que as suas: D. M.— É uma simples coincidência. Dezenas de milhares de pessoas nesta cidade têm as mesmas iniciais. Isabella piscou o olho para mim.— Olhe o que achei. Tinha resgatado uma caixa de latão cheia de velhas fotografias. Eram imagens de outros tempos, velhos postais da antiga Barcelona, dos palácios derrubados no Parque da Ciudadela, depois da Exposição Universal de 1888, de grandes casarões arruinados e avenidas semeadas de gente vestida com os trajes cerimoniosos da época, de carruagens e memórias que tinham a cor de minha infância. Nelas, rostos e olhares perdidos me contemplavam a trinta anos de distância. Em várias daquelas fotografias tive a impressão de reconhecer o rosto de uma atriz que era muito popular nos meus anos de juventude e que caíra no esquecimento há muito tempo. Isabella me observava, silenciosa.
— Está reconhecendo alguém?— perguntou.