O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | страница 210
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Subi para o escritório. Era noite fechada, sem lua nem estrelas no céu. Abri as janelas
de par em par e debrucei para contemplar a cidade em sombras. Só um sopro de brisa
circulava e o suor mordia minha pele. Sentei sobre o parapeito e peguei o segundo dos
dois charutos que Isabella tinha deixado em minha escrivaninha dias atrás, esperando uma
lufada de vento fresco ou uma idéia um pouco mais apresentável que toda aquela coleção
de lugares-comuns para poder cumprir as determinações do patrão. Foi então que ouvi o
som das janelinhas do quarto de Isabella se abrindo no andar de baixo. Um retângulo de
luz caiu sobre o pátio e vi o perfil de sua silhueta recortada nele. Isabella aproximou-se da
janela e olhou para a escuridão sem perceber minha presença. Fiquei olhando enquanto
se despia lentamente. Vi quando se aproximou do espelho do armário e examinou seu
corpo, acariciando o ventre com a ponta dos dedos e percorrendo os cortes que tinha feito
no interior das coxas e dos braços. Contemplou-se longamente, sem nenhum véu além de
um olhar derrotado, e depois apagou a luz.
Voltei para a escrivaninha e sentei diante da pilha de anotações e notas que tinha
reunido para o livro do patrão. Reli aqueles esboços de histórias repletas de revelações
místicas e profetas que sobreviviam a provas terríveis e retornavam com a verdade
revelada, de almas puras e infantes messiânicos perseguidos por impérios laicos e
malévolos, de paraísos prometidos em outras dimensões a quem aceitasse a própria sina
e as regras do jogo com espírito esportivo e de divindades ociosas e antropomórficas sem
nada melhor para fazer do que manter uma vigilância telepática sobre a consciência de
milhões de frágeis primatas que tinham aprendido a pensar justo em tempo de descobrir
que estavam abandonados à própria sorte num rincão remoto do universo e que, levados
pela vaidade, ou pelo desespero, acreditavam de pés juntos que céu e inferno se
revelavam ao sabor de seus pecadilhos triviais e mesquinhos.
Perguntei-me se era aquilo mesmo que o patrão tinha visto em mim, uma mente
mercenária e sem escrúpulos, capaz de criar uma história narcótica para fazer dormir as
crianças ou convencer um pobre-diabo sem esperança a assassinar seu vizinho em troca
da gratidão eterna de divindades adeptas da ética do banditismo. Alguns dias antes, tinha
chegado mais uma daquelas cartas marcando um encontro com ele para discutir os
progressos de meu trabalho. Cansado de meus próprios escrúpulos, pensei comigo
mesmo que só faltavam 24 horas para o encontro marcado e no ritmo em que iam as